-Nossa, Dorinha, como eu queria ser esse picolé...
-Além de fresco, queria um pau enfiado pela sua traseira também?!
Dorinha tinha um problema. Nunca conseguia ouvir um elogio, ou uma estupidez, sem abusar do sarcasmo e cinismo. Normalmente os diálogos com Fred não passavam de uma troca de grosserias. Na verdade era só uma oferta unilateral de grosserias. O office boy era simplório demais para pensar em qualquer resposta à altura e, como normalmente só passava pela portaria para bater ponto ou fugir do serviço dizendo que ia à Pavuna entregar qualquer coisa que ninguém se importava com o que era, era quase um ritual sociológico.
Dorinha já trabalhava como recepcionista do Edifício Getúlio Vargas, que, além de ter um nome super original, ficava num dos lugares mais quentes (e não no bom sentido) da cidade, a Avenida Rio Branco, há quase cinco anos e, em todos esses anos, nunca havia tomado uma única cantada para a qual não tivesse uma resposta, normalmente estúpida, justamente como a mãe lhe ensinara. Ainda tinha pesadelos com o primo de Fred, um gaúcho relativamente esquisito e que provavelmente era office boy em sua terra natal. Sapopemba do Norte, ou qualquer coisa do tipo. Viera ao Rio de Janeiro de férias no último carnaval e, de um certo modo, até que não era tão feio, exceto pelos olhos que, ao mirar um mapa mundi, apontava um em direção à Austrália e o outro para o Alaska. Ao mesmo tempo. Mas era totalmente intragável, porque teimava em se valer de cantadinhas e gracejos escrotos.
Durante esse meio tempo, usou de todas as artimanhas possíveis para tentar se postar de joelhos diante de Dorinha, fosse em adoração, pedido de casamento, humilhação ou tentativa de colocar a boca em lugares impróprios. Mas, na falta de inteligência, que lhe era peculiar, só lhe sobraram as cantadas muito porcas, que provavelmente eram tradição de família.
-Gata, você é linda demais, só tem um problema... a sua boca tá muito longe da minha...
-Questão de higiene, garoto!
-Que é isso, meu anjo? Qual o caminho mais rápido pra chegar no seu coração?
-Cirurgia plástica, lavagem cerebral e uns três meses de malhação.
Era fácil demais, pensava Dorinha, certamente se escrotice fosse modalidade olímpica, teria cifose (que, segundo minha mãe e o aurélio, significa "corcundismo") de tantos quilos de ouro no pescoço.
Certa vez, uma família de caipiras paulistas passou pelo edifício, deixando Dorinha atordoada. O pai, senhor já de certa idade, numa tentativa muito peculiar de disfarçar as olhadelas para as pernas e coxas das mulheres que passavam, aparentava estar simulando ataques de mal de Parkinson, que até seriam plausíveis se ele não tivesse tentado morder o traseiro de uma mulata passando pela calçada, veio, aos tropeços, pelo grande hall de entrada, até o balcão da recepção.
-Tarde, moça!
-É dia ainda, senhor. Bom dia.
-É tarrrde! Já até almocei! Já passa das dez da matina!
Contendo um "puta que pariu" sussurrado atráves de um sorriso daqueles que só recepcionistas podem dar, tentou se recompor.
-Boa tarde, senhor. Em que posso ser útil?
Ao dizer isso, adentraram o que deveriam ser os filhos, ou os animais de estimação do velho. Com a quantidade de uivos, baba e coisas esquisitas na boca das criaturas só poderiam ser duas coisas: crianças ou lobos. Eram dois garotos pequenos, de talvez uns 9 anos e um já de 21. Todos os três pareciam estar no cio.
-Óia, paai! Quanta mulher boniiita, paai! - Uivou um dos menores.
-Fica quieto, moleque, quer espantar o povo?
Novamente, através dos brancos dentes, quase um sibilar por detrás do balcão - Mais do que um bando de neandertais descongelados correndo com pedaços de mamute entre os dentes pode espantar?
-O que foi que a senhora disse? - Intercedeu o maior deles - Será que eu já não te vi em algum lugar, moça?
-Claro! Eu sou a recepcionista da clínica de doenças venéreas. Não se lembra?
Ruborizando, o rapaz deu as costas e apoiou os cotovelos no balcão, sussurando para seu pai.
-As mulheres daqui num sabem é brincar, viu! Eu juro que nunca fui nesse lugar antes, pai. O gado lá de casa tá limpo! Confia em mim!
Nesse meio tempo, uma pequenina e encurvada senhora passara pelo hall em direção ao elevador. Ao entrar e se fecharem as portas, o indicador digital logo começou a subir do 1 até o 9 e então de volta ao 1. Ao se abrirem novamente as portas, uma ruiva lindíssima, dessas de anúncios de clínicas estéticas desfilou até a saída. Todos os machos do recinto olharam admirados. Os lobos do senhor caipira mal se contendo.
-Que maquinário do diabo é esse, pai? Pega a mãe lá e coloca no número 20 que até eu pego!
Tomando um cascudo no topo da cabeça, o menorzinho de todos foi se esconder no meio das pernas do irmão mais velho, quase chorando, mas sem desgrudar os olhos do traseiro da ruiva.
-Mas, então, moça, pode me dizer qual é o andar do Doutor Carvalho?
-Décimo segundo, senhor. Tenha um bom dia.
O maior alívio de Dorinha era quando as pessoas iam embora. Ser recepcionista era o pior castigo que um misantropo poderia ter. Seu consolo, afinal, é que a maioria dos homens que vinha ao prédio, normalmente ia visitar o Doutor Carvalho, que era proctologista. e conseguia pegar uma bola de basquete com uma só das mãos. Certa vez tinha dito a Dorinha que excesso de agressividade podia ser explicado, muitas das vezes, por excesso de testosterona. O resto dos consultórios era só de obstetras e ginecologistas, o que justificava a quantidade de mulheres por metro quadrado do imóvel.
Dorinha, porém, semana passada foi parar no hospital. Foi espancada gravemente em uma boate. Fruto terrível de seu humor. Ao dançar inocentemente na pista foi abordada por um rapaz semi-alcoolizado junto com um outro amigo que, pelas caras, não queriam dormir com tanto testosterona (e agressividade) na corrente sanguínea.
-Opa, opa, gatinha, eu quero me dar por completo pra você.
-Sinto muito, eu não aceito esmola.
-Ora, vamos parar com isso, nós três estamos aqui nesta boate pelo mesmo motivo. - Começou o outro amigo.
-É, pra pegar mulher... - Replicou Dorinha.
Visivelmente consternado o primeiro a puxou pela cintura e sentiu um volume estranho no bolso dela. O celular, ou a carteira, pensou ele.
-Então, o que você faz da vida?
-Eu sou travesti.
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