Day after...

O casal olhou pra trás assim que os portões se fecharam. Via-se um letreiro desses de neon, comuns em motéis baratos de beira de estrada, onde se lia "PARAÍSO" - o "O" estava trêmulo e piscante, alguém teria que trocar aquelas luzes cedo ou tarde.
Andaram, nus, até alcançarem um matagal, onde se deitaram.

-Tipo... meio vazio, né?
-Pois é. Ninguém inventou o cigarro ainda. E eu não posso me enrolar em nenhum edredon, virar pro canto e dormir também.
-Pior. Você vai inventar o ronco cedo ou tarde e eu não vou poder ir pra casa da minha mãe ou pra minha casa, porque agora eu não tenho uma.
-Graças a você!
-A mim? Olha lá, seu ingrato! Vai dormir no sofá hoje!
-Boa sorte construindo um desses pra me mandar dormir lá.
-Acho que acabamos de inventar a discussão de relacionamento.
-Ótimo... como se inventar a idéia de você ter uma mãe não fosse ruim o suficiente.
-Você é um babaca. Até parece que foi ruim assim!
-Você tem alguma noção do inferno que nossa vida vai virar agora? Trepar pode ser bom pra caralho, mas criar filhos não! Esqueceu que ninguém inventou uma porra de uma camisinha, nem pílula anticoncepcional? E que eu não faço a mínima idéia do que sexo tântrico significa?!
-Relaxa... se os tais filhos derem tanto trabalho assim, a gente faz igual teu pai. É só mandar embora de casa.
-Só não pensei que ele ia fazer isso comigo por andar em má companhia.
-Realmente... aquela serpente era uma cuzona.
-Não estava falando dela...

O homem se enrolou numa folha de bananeira e ensejou virar as costas, enquanto murmurava:

-O bom é que não precisamos nos preocupar com ciúmes e papos de ex e tudo mais.
-Como assim? E aquela piranha?!
-Que piranha?
-A tal Lilian!
-Lilith, porra!
-Tá vendo... sabe até o nome direitinho da vagabunda!
-Puta que pariu... desde que a gente saiu da casa do meu pai, a única coisa realmente útil que você me instigou a criar foi a arte de emanar palavrão.

A mulher se pôs por sobre o homem e colocou as mãos em seu peito.

-Quer saber? Cansei! Você é um escroto!
-Ótimo! Só falta você inventar o divórcio agora!
-E vou mesmo!
-Só tem um problema, meu bem. Não existem advogados! Ninguém vai se beneficiar. Qual é a lógica de se desempenhar um ato em que ninguém ganha?

De repente, ouviram um farfalhar no meio do mato, um ruído muito característico, daqueles que as cobrinhas dos desenhos da Disney fazem. Uma serpente preguiçosamente se arrastou sobre seu ventre, deslizando até perto do pé da mulher, sussurando em um sibilar quase carioca:

-Advocacsssia? Hm... masssh que idéia maravilhossssa a de vocêsssh!
-Quando é que alguém vai inventar um letreiro de "proibido a entrada de animais"? - Disse a mulher revirando os olhos.
-Olha os modos, porra! Não sabe que é falta de educação falar assim com cobras quando você não inventou o soro antiofídico ainda?
-Eu poderia mediar a dissshputa de vocêsssh... por um preçssso, claro... ssshh...
-Ih... acho que além da filha da putagem, você acabou de inventar o sotaque escroto, meu amigo escamoso... vamos, divirta-nos, fale "três xis dois"! - Riu-se a mulher.
-Trêixssh, xíxsh, doixsh?
-Hahahaha! Acabei de inventar a escrotice gratuita!
-Não vejo graçssssa nissso...
-Deixa pra lá... você acabou de nos ajudar a elaborar o conceito da reconciliação por fator imbecil externo... Agora, se você quer saber, tem uns 7 ou 8 paraísos no caminho pra cá... vai que você não consegue vender essas maçãzinhas da branca de neve pra mais alguém... às vezes fica chato aqui sem ninguém pra me ajudar a criar o futebol ou o papo de homem.

A serpente, ávida por enganar (e fazer sabe-se lá mais o quê - afinal, a zoofilia haveria de ser inventada) mulheres alheias, sumiu no meio dos arbustos, indo em direção à trilha que o casal tinha deixado.

-Rápido, mulher, venha aqui e me ajude com isso!
-O que foi? Por que a pressa?
-Tenho que dar um jeito de inventar um caminhão e o atropelamento rápido!
-Hm... acho que é uma boa idéia... acho que seu pai é um imprestável. A única coisa que ele inventou para nós foi a visita indesejável. Vem cá... tem outros paraísos por aí mesmo?
-Não seja tola. Foi só uma desculpa.
-Ah... igual àquela vez em que eu disse que estava com dor de cabeça? Ou que eu estava menstruada?
-Ou que sua mãe iria vir dormir aqui em... Caralho! Como fui estúpido!
-Ah, benzinho... tudo bem, não te acho estúpido por não ter se tocado.
-Vamos parar com esse papo de mãe... essa porra me irrita.

Resignados, deixaram-se cair na relva novamente.
-Hey... já descobri porque esse dia está sendo uma merda.
-O que foi, querido?
-Inventamos a depressão pós-coito.
-Day after é uma merda.
-Cala a boca. Estou de ressaca moral.
-Aff... Acho que é hora de inventar o Ricardão.