The Devil went down to Rio - Parte III


Pedindo perdão pelo atraso ABSURDO de quase um mês (aquela desculpa babaca de provas, blá blá blá, nascimento de filho, blá blá blá, feriado, blá blá blá, porre descomunal, blá blá blá, morte do Lula, blá blá blá, pedido de casamento, blá blá blá e falta de saco) termino finalmente essa trilogia (com um pouco mais de linhas do que a maioria dos leitores apreciariam) com a aparição mais do que circunstancial do Cabeludo e, claro, muita porradaria. Asseguro a todos que a postagem é grande mesmo porque eu sou babaca e porque trilogias são moda, não há nenhuma receita de bolo perdida no meio do texto para dar sustância, como eu sei que vocês faziam nas provas de filosofia no ensino médio. Com vocês, a parte final:
The Hairy one went down to Rio too.


-Ei, quer fazer o favor de sair do meio da rua, cidadão?
-Cidadão? Eu? Ah... mas eu devo andar no meio de todas as estradas, onde o bom e o mau possam me ver e ouvir.
-Que papo caótico é esse, rapaz? Anda, pro passeio, vai!
-Paz, irmão. Eu sou o filho de Deus, aquele que abençoou esta cidade. Coroaram-na até com uma estátua minha, vim para vos salvar.
-Filho de Deus é? E minha mãe é virgem!
-A sua também?

E foi assim que Jesus foi recepcionado na cidade maravilhosa. Uma babaquice qualquer que chamaram de "desacato à autoridade" acabou lhe valendo uma perícia psiquiátrica que o remeteu para o Pinéu. Até que o lugar não era de todo ruim. Claro, se comparado com aquela porcaria que era em Jerusalém antigamente. Aqui tinha 3 refeições ao dia e um negócio esquisito chamado "noticiário" com pessoas dizendo "boa noite" e dando notícias ruins. Mas o mais curioso eram as pessoas retrucando o "boa noite" e ficando mais excitadas a cada má notícia. Digo, os funcionários do manicômio, que eram (dentro da medida do possível) sãos. Seus colegas internos não só não davam a mínima para aquelas notícias, como criavam as suas próprias.

Jesus ficou particularmente amigo de um sujeito que chamavam de Willy. Willy se dizia um super-herói e usava uma saia. É, saia. Na verdade, ele chamava de kilt, mas, como todo escocês está fadado a escutar essa eterna piadinha, ele aceitou o estigma da saia. Viera parar no Rio de Janeiro quando acabou todo o seu dinheiro para comprar whiskey e pagar seu aluguel e só lhe sobraram uns trocados pra comprar uma passagem pro Brasil (qual é, tá achando que é difícil vir pra essa merda?). Quando chegou aqui, descobriu que voltar era bem mais difícil e que só tinha cachaça, whiskey era coisa de magnata. Ficou louco. Literalmente.

Depois de todas as perturbações mentais imagináveis, Willy passou a dizer que era sobre-humano. Seu único ponto fraco, já que todo super-herói tem um, eram armas de fogo. Mas tratou logo de resolver esse problema nomeando Robinson, um pedreiro esquizofrênico, como seu fiel companheiro, tinha os poderes do super-homem. Podia parar balas com o corpo. Uma vez só.

Quando soube que Jesus se dizia o filho de Deus, foi logo puxando assunto.

-Diz aí, Messias, aquele negócio de água pra vinho funciona pra malte escocês também? Eu sei que destilado é diferente de fermentado e tudo mais, mas, poxa, quebra o galho, vai?
-Os dons de Deus não devem ser usados em vão. Além do mais, tem muito daquela coisa fedorenta por aqui.
-Que coisa?
-Como é mesmo aquela coisa esquisita que os brasileiros adoram?
-Samba? Futebol? Auto-depreciação? Corrupção passiva? Preguiça de ler textos muito grandes em blogs?
-Não, não... cachaça!
-Ô, senhor... com todo o respeito e perdão antecipado pela linguagem, mas cachaça é foda! Nem o diabo aguenta com aquilo!
-Sério? Isso é uma informação valiosa para a minha missão aqui na Terra.
-Veio dar um couro no capeta? Pensei que ia rolar todo aquele papo de quatro cavaleiros e destruição e caos e essas coisas todas.
-Não, não... Meu Pai ficou inspirado por uma propaganda dessas de uma loja de departamentos daqui. Casas Baiano ou alguma coisa assim... vocês fazem merda agora e só começam a pagar daqui a mil anos em suaves prestações que envolvem governos estúpidos e estilos musicais deploráveis. Não se preocupe.
-Como assim? É TV aberta no céu?!
-Contenção de despesas, Willy... uns querubins safados torraram uma nota preta com pacotes do Big Brother por pay-per-view... aí Papai mandou cortar.

Quase dois meses depois liberaram o Messias, afinal, ele agia normalmente e ninguém mais se lembrava dos motivos pelos quais ele estava ali. Assim como fazem com todos os internos e presos por essas bandas. Já de posse de suas coisas, ou seja, absolutamente nada, Jesus foi saindo junto com Willy e Robinson que, como notaram, não fala porra nenhuma. Ou, se fala, este escriba tem muita preguiça de relatar, vamos assumir então que, por mais que fale, Robinson não fala nada digno de nota. Assim como faz a grande maioria das pessoas.

-E então, chefia, pra onde é que a gente vai agora?
-Chefia? Eu sou um instrumento do amor de Deus, não sou seu chefe. E a missão é minha, Willy, você não precisa ir junto.
-Qual é chefe? Você tinha doze caras que enchiam a cara contigo antigamente... vai dispensar um que te segue de bom grado agora e que nem te pediu uns trocados pra tomar um porre? Além do mais, eu uso saias!
-E em que isso te qualifica?
-Não qualifica, mas eu fiquei sem argumentos.
-E eles não enchiam a cara comigo! A culpa não é minha se o único retrato que sobrou de todo mundo junto é de uma festa. E, Deus me perdoe, já viu festa sem bebida?
-Tá bom, chefe, eu acredito. Minha mãe dizia que discutir com Deus dá azar. A gente precisa de uma grana... alguma idéia?
-Bem, eu trabalhei de carpinteiro desde novo... e depois de pregador itinerante. Acho que já devo ter o tempo necessário para requerer aposentadoria se considerarmos a insalubridade dos locais de serviço e a invalidez permanente daquele incidente da sexta-feira santa.
-E não é que o Senhor é sábio mesmo?

Dirigiram-se então para o posto mais próximo do INSS. Um sujeito com cara de cu de frango os atendeu, como todo funcionário público que fica na repartição no mês de Janeiro, quando todos os seus amigos estão lhe mandando cartões postais de um lugar bem gelado e sem turistas enquanto ele torra no proverbial Rio Quarenta Graus, tentando se esquivar do calor com um sacolé de 90¢ (inflação é foda).

-Tá de sacanagem com a minha cara né, bicho? Esses documentos são de quase dois mil anos atrás! Vai ter que ir na matriz e renovar essa porcaria! Tá tudo vencido!
-Como assim vencido? Esse cara é o filho de Deus!
-Mas é cada uma que me aparece... Somos todos filhos de Deus. Esse papo astrológico aí não cola! Outro dia veio um espírita dizendo que contribuiu 42 anos numa encarnação passada e que em uma outra foi desembargador! Queria receber integral de vinte e cinco mil! Qual é? Pra cima de mim não, jacaré! Morreu, zerou os prazos! Não tem dessa! Pode voltar do jeito que quiser! Encarnado no cachorro, depois de 3 dias, depois de 5 dias úteis, vindo de balão, se zumbificando. Zerou! Ou seja, morreu, se fodeu!
-Então o que é que eu faço? - perguntou Jesus intrigado.
-Tente não morrer que fica tudo certo! Aí você arruma um emprego legal e volta daqui a uns trinta e cinco anos que a gente resolve.
-Olha, moço, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar fazendo coisas feias pra senhora sua mãe, mas estou pedindo uma aposentadoria pro cara aqui que é filho de Deus! Quebra um galho aí!
-Ai, meu Deus do céu...
-Sou eu! - Jesus levantou o braço.
-Onde está o maldito do Dr. Pascoal pra tratar de uns malucos desses quando a gente precisa dele?
-Pascoal? Você quer dizer Ernesto Pascoal? O gordinho da gaita? - Perguntou Jesus.
-Se o Dr. Pascoal toca gaita eu não sei, mas ele é bem redondinho sim... Por quê?
-Pode me dar o endereço dele?
-Se eu te der, promete que vai sumir daqui e não me perturbar mais com isso de que Deus vai me dar um lugar bonito com vista pro quarto da Marilyn Monroe quando eu morrer se eu te ajudar?
-Deus não mente.

Meia hora depois, nossos heróis chegavam à Cinelândia.

-Já pensou em mandar colocar metrô no céu?
-Se o povo aqui embaixo já reclama de quando cai chuva... já pensou um trem inteiro descarrilhando sobre a sua cabeça? A primeira coisa que todo mundo faz quando é acertado por qualquer idiotice é dizer "ai, meu Deus", mas quero ver alguém chamar meu velho quando fica feliz! Ia ser um festival de "Pai do céu" e "meu Jesus santíssimo" pra tudo que é lado! Lá em cima nossa empresa de comunicação é pior que a Vivo! Ia derrubar o servidor!
-O troço tá tão feio assim, Senhor?
-Pior... a banda larga ficou muito cara e Papai instalou internet discada lá de novo...
-Misericórdia...
-É esse o nome do servidor. O da internet discada é Esperança. Nega-se veementemente a morrer.
-Entendo. O Todo-Poderoso é tão muquirana assim?
-Ele é judeu até hoje. Um dia o flagrei conversando com um rabino que tinha acabado de morrer. O rabino estava se lamentando porque o filho tinha virado cristão... Meu Pai o consolou dizendo que sabia exatamente como ele se sentia.
-Ouch... Acho que chegamos. Sexto andar.

Novamente, depois de insistentes batidas, veio o velho Pascoal à porta.

-Não quero comprar!
-Não viemos vender, Pascoal! Venho por parte do Pai.
-Meu pai morreu há mais de 20 anos, não quero comprar biscoitos de cegos nem de escoteiros.
-Eu sei, ele quase chorou naquela copa do mundo da França. Grande Alfredão... emotivo que só ele.

Os olhos de Pascoal se arregalaram. Ninguém daquela idade deveria conhecer seu pai.

-Perdão, Mestre! Não reconheci de primeira. Esse visual black power lhe caiu muito bem, mas fica difícil mesmo saber que és o Senhor.
-Mas como me reconheceu tão prontamente, Pascoal?
-Ora, se eu recebi uma visita do diabo e lhe quebrei os cornos duas vezes, achei que pelo menos a chefia lá de cima ia me prestar uma cortesia e vir beber comigo! Além do mais, ninguém com menos de 70 anos conhece papai hoje em dia. E sabia que o capeta não ia se vestir tão bem assim. Ele é racista.
-Vocês aqui embaixo só pensam em beber?!
-Também jogamos sueca - retrucou Pascoal.
-Obrigado, Senhor! - Willy agarrou Jesus pela cabeça e lhe deu um beijo na testa, pulou para a cadeira e agarrou o baralho e um copo - Já podemos começar a visita de cortesia dos céus?
-O Senhor não perde tempo em arrumar novos discípulos não é?
-Na verdade era pra ser uma missão solo. Mas acho que é dos desígnios do Pai. Mesmo porque eu devo dar força às minorias também. E não há gente que seja mais alvo de preconceito que os Escoceses. Afinal, usar saias e viver bêbado jogado na sarjeta com gosto de rabo de porco na boca o dia inteiro e realmente gostar disso, de fato causa uma má impressão nas pessoas.
-Entendo... e o outro?
-Robinson? Ah... ele é figurante.
-Pobrezinho! O Senhor é verdadeiramente o filho de Deus! Nunca vi tamanha bondade!
-Meu copo está vazio, senhor anfitrião! - Berrou Willy com impaciência.
-Ah, sim, sim... aqui está... Mas, diga-me, Senhor, o que veio fazer na minha humilde casa?
-Deus me mandou pra achar o diabo e o mandar literalmente pro inferno.
-Hum... Bem, acho que ele virou gari. Eu ganhei uma causa dele e a única coisa que não consegui tirar daquele maldito foi o fedor. Sabe, dizem as más línguas que o diabo, na verdade, não é argentino, mas francês... e daí veio a derrocada dele. Afinal de contas, todo aquele papo de igualité, fraternité e liberteé não me convence... é só uma desculpa pra suruba interracial generalizada. E num país como o Brasil, quem é que precisa de desculpas pra isso?! Fez um sucessozinho inicial bobo até todo mundo se tocar que ele só colocou as mesmas coisas de sempre de um jeito diferente. Brasileiro é burro, mas não é idiota!
-Graças aos céus por ser escocês! - Resmongou Willy.
-Você não poderia fingir compreensão pra eu me sentir melhor?
-Não. Fingir é coisa de viado enrustido ou de mulher frígida. Além do mais, um discípulo do Senhor não pode mentir.
-E beber pode?
-Se não pudesse, o próprio Messias não tinha feito aquela paradinha lá com o vinho! E padre não enchia o pangú durante a missa!
-Esse cara não tem respeito, Senhor?
-Paciência, Pascoal. Willy é incorruptível. Muita gente já se entregou ao diabo por coisa tola. O seu presidente, por exemplo, virou satanista depois que não conseguiu fazer a coreografia do hit "Deus é Dez" do Pe. Marcelo Rossi.
-Quem diria... por causa de um mísero dedo mindinho...
-Há quem diga que foi falta de coordenação motora mesmo. Há outra corrente que diz que ele só aprendeu a contar até cinco. O que importa é que ele não é mais dos nossos...
-Compreendo, Mestre. Mas, o que vamos fazer?
-É uma boa pergunta, Pascoal... mas Willy disse que o diabo não pode contra a cachaça.
-Cachaça? Se isso fosse ferramenta contra o diabo, o presidente não teria sido possuído como dissestes.
-Você acha mesmo? Os ajudantes sempre tem algum poder que o mestre não, tipo o Robinson aqui! - Disse Willy - Meu pai ficava praticamente onisciente quando bebia. Conseguia ver tudo e todos e olha que ele não era esquizofrênico! E onisciência é coisa de Deus, o que significa que ele era tocado pelo Pai quando bebia! Não pode ser coisa ruim!
-Essa foi a coisa mais idiota que eu já ouvi em toda a minha vida. Sério, eu me senti mais burro depois disso - Pascoal tirou a garrafa de perto de Willy - pensava que vocês escoceses eram mais fortes com a bebida.
-E desde quando grau alcoólico é desculpa pra moral flácida ou piadas ruins? Nós somos péssimos com o humor mesmo e admitimos! Agora, me dê duas garrafas de puro malte escocês que eu espanco duas dúzias de skin heads pra defender o Senhor.
-Ó, Pai! Primeiro Pedro com aquela síndrome de Mike Tyson cortando orelhas, agora um cara de saias querendo distribuir porradas. Não podias me arrumar seguidores mais pacíficos?
-Não reclama, Mestre, se ele te arrumar o Clodovil e o Leão Lobo não venha chorando depois.
-Homossexuais não são mais minoria. Os oprimidos agora são os heterossexuais, Pascoal, por isso vocês dois, digo, três estão aqui discutindo e não se agarrando de beijos e abraços.

No dia seguinte, os quatro (não, não nos esquecemos do Robinson) se dirigiam para a avenida Rio Branco, a antiga Avenida Central, no centro (duh) do Rio de Janeiro. Justamente onde havia a maior concentração de lixo por metro quadrado na madrugada carioca, logo, o lugar perfeito para uma aparição do demônio.

Lá pelas tantas, sentiram primeiro o fedor nauseante de dez mil caganeiras e depois avistaram as luzes do caminhão. Os outros garis usavam máscaras de gás por solidariedade para suportar o colega que dizia não poder tomar banho por causa de uma estranha e peculiar alergia à água.

-Mestre, alguém encheu meu cantil com água!
-Fui eu, Willy, pensei que você deveria estar sóbrio para o embate final.
-Porra, Pascoal! Vou começar a mijar dentro das suas garrafas de água! Afinal, eles dão uréia pros bois mastigarem!
-Vocês dois podem parar com isso? Tem um cara com chifres logo ali na frente, você pode mijar na boca dele, Willy.

Quando percebeu quem era que estava ali, parado no meio da rua, como irritantemente costumava fazer sempre, o diabo pulou do caminhão. Gritou qualquer coisa sobre uma misteriosa vontade de cagar e que correria atrás do caminhão depois. O que era um certo alívio para seus companheiros de serviço.

-Ora, ora, se não é o almofadinha cabeludo lá de cima... com um rastafari muito bem feito! E o gordo maldito que me levou à bancarrota! E... um homem de saias? E... e... um figurante!?. Tá de sacanagem comigo né, Cabeludo? Rá! Você já foi melhor com o visual e recrutamento de discípulos. Da próxima vez só falta aparecer com um RPGista e um skatista e contratar o Ronaldo Esper pra te dar um trato!
-Eles são tão bons quanto qualquer outro ser humano sobre esta Terra, cão. Volte para o lugar de onde veio e deixe meus irmãos em paz. Estas paragens já sofreram sua presença por muito tempo.
-Agora, você escrotizou com isso... Maria Madalena até que era aceitável... agora, um cara com barba vermelha e saiote não rola, cabeludo! Vai subindo pra casa que tua moral tá baixa!
-Não vou te pedir novamente, Lúcifer... volta pro inferno antes que dê mais confusão!
-Só saio debaixo de porrada!

Nesse momento o diabo sacou um famoso três oitão da cintura e desferiu um tiro na direção de Jesus. Se fosse possível utilizar recursos de edição de imagem em um texto, haveria um agora. Provavelmente fazendo aquela coisa brega de acompanhar a bala em câmera lenta. É, aquela viadagem que lançaram com matrix e que todos os filmes posteriores copiaram. Até os que não têm armas de fogo.

Os olhos de Jesus brilharam. Não se sabe exatamente com o quê. Deus não tem medo. Isso é coisa de viado. Aparentemente nem Robinson tinha. Com um salto cinematográfico, postou-se entre a bala e o Messias. Robinson era macho. Macho pacaralho. E, agora, um macho morto pacaralho. E, possivelmente, ficaria pra ele aquela suíte maravilhosa com vistas plenas pro quarto da Marilyn Monroe por causa desse sacrifício heróico.

Willy estremeceu. Ninguém mata o fiel companheiro de um super-herói. Não sem levar uma boa coça e merecer pelo menos uma edição especial da revistinha. Mas Willy estava impotente. Não tinha uma única gota de whiskey em seu cantil. Jesus o encarou... Pousou suas mãos sobre o cantil. Willy sabia o que significava aquilo. Abriu o cantil e tomou-o todo em um gole só. Era, com toda a certeza, a melhor porra de whiskey que já havia tomado na vida - e não foram poucos! Uma força sobrenatural tomara-lhe os punhos e, agora, ele sabia como Asterix se sentia.

-Então vai ter que ser na porrada! - Bradou em plenos pulmões.

O diabo, incrédulo em como uma pessoa de saias poderia ser tão insensível a ponto de beber quando um ente querido morre, ficou mais incrédulo ainda quando essa mesma pessoa de saia lhe comeu no cacete. Com todas as letras e sem ambiguidades. Se você acha que a torcida do Manchester United briga bem é porque não viu Willy naquela noite. O diabo parecia ter sido atropelado por um rolo compressor. 666 vezes. Ia deixar marca. Ah, se ia!

Quando finalmente Willy se cansou de bater, Jesus olhou pra poça de água suja na qual o diabo estava. "Por que não?" pensou ele. E, impondo suas mãos, transformou a poça inteira em cachaça. Dessa vez não teve choro nem grito. Sem efeitos especiais, sem luzes, fumaça e toda aquela pirotecnia que o capeta tanto gosta. O cão sumiu de vez. Assim, puf, como salário antes do meio do mês ou aquela mulher fantástica que foi substituída misteriosamente por uma bruxa gorda na calada da noite e você nem reparou. Em todos os casos, você jurava que estava ali antes! Sim, estava! Mas não há nada que Velho Barreiro não resolva.

Estava feito. Jesus devia voltar lá pra cima. Já era quase carnaval e ele não queria ter que desfilar junto com o INRI Cristo. O Cabeludo deixaria saudades. Mas rapidamente Pascoal e Willy se juntaram a ele.

A Willy tinha sido concedido o dom de transformar água em whiskey do mais divino. Inicialmente ele ficou rico vendendo o Realy Hairy Whiskey - O uísque verdadeiramente cabeludo (TM), mas teve complicações e morreu com uma cirrose cruel logo depois de ter ido à falência bebendo todo o próprio estoque. Pascoal não precisava de dons. Já tinha recebido o dom de ser escroto. Comprou a companhia do Velho Barreiro e passou a vender como desentupidor de pias e privadas. Montou um pequeno império, mas faleceu também logo depois que tomou uma dose dessa porcaria para tentar se consolar pela morte de Willy.

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Alguns quilômetros céu acima:

-Ei, gente! Corre aqui! Ela tá saindo do banho!



Obs.: Para os curiosos (e corajosos) que chegaram até aqui, um adendo final (que deveria estar no começo do texto, mas, como eu disse, sou babaca): minha sugestão musical para essa peça final é I'm Shipping up to Boston. Não, a música não tem porra nenhuma a ver com o texto.
Eu estou escutando essa merda e achei legal, afinal, isso é uma sugestão - conselhos nunca têm nada a ver com a situação aconselhada mesmo.