A cagada (ou - Toda perspectiva é subjetiva)
-Quinze anos nesse emprego de merda! Quinze anos! E o que eles me dão? Uma mesinha perto da janela! Só isso! Nem um diretor-geral, nem um gerente de marketing. Nada! Eu não sou secretária de nada! Não ganho uma chupada de ninguém! A única coisa que eu faço naquela merda de lugar é atender telefonemas que caem lá por acaso! E as pessoas nem me dão cantadas mais!
O tempo não havia sido agradável com Dorinha. Dez anos depois de seu incidente na boate, continuava na mesma empresa de administração predial. Mantida lá talvez porque sempre divertia os cargos de chefia feminina com sua criativa agressividade. Ou por pena mesmo. Afinal, Dorinha estava sem promoção há 5 anos, sem sexo há 10 - porque os homens realmente tomaram medo dela - além do mais, havia engordado 35kg. As altas executivas da empresa a mantinham por perto, nem que fosse pra ressaltar a beleza delas, que era escassa. O caso era que qualquer uma era lindíssima perto de Dorinha naqueles dias. No fim das contas, ainda mantinham uma esperança de que ela se suicidasse e não precisassem pagar a verba recisória. E ela estava pertinho assim da depressão, afinal, o que é um peido pra quem já está nadando em um oceano de merda?
-Senta aqui, senhora - disse o negão se levantando da cadeira no metrô.
-Nossa, obrigado! Viu, Jéssica, tem gente educada no mundo ainda!
-Dorinha... esse é o assento preferencial pra idosos e gestantes.
-Tá insinuando que eu estou gorda é? Vai, pode dizer, todo mundo já me olha com aquela cara de quem quer dizer "você só faz gordice, sua gorda!"
-Bobagem, Dora! - Como qualquer boa amiga, Jéssica nunca cuspiria o veneno na cara de sua companheira. Por trás é muito mais gostoso (nunca diga isso fora de contexto) - O Marquinhos mesmo, só quer comer, comer, comer... nunca pára! Parece que tem o diabo no corpo!
-Sério? Tadinha, amiga, ele deve estar uma bola!
-Nada... Você acha que eu sou magricela desse jeito por quê?
-Porra...
Ao chegar novamente ao fatídico edifício com nome original, Dorinha tem uma epifania.
-Já sei, Jéssica! Eu vou pintar meu cabelo! Já viu esse monte de gordótica do inferno? Esse povo esquisito de preto, debaixo desse sol de 40 graus? Ouvi dizer que elas são umas piranhudas sinistras! Se alguém é piranhuda, é porque está dando pra algum desesperado por aí!
Dorinha então resolveu dar seus primeiros passos para ser uma mulher comida novamente. Logo depois de pintar o cabelo, tentou um nutricionista:
-Então, a senhora deveria praticar mais exercícios e comer coisas saudáveis.
-Coisa saudável? Exercício? A vaca anda e come grama o dia todo e é gorda! A baleia nada o dia inteiro, só come peixinho e alguinha e é gorda! Exercício e alimentação de cu é rola, doutor! Tudo o que eu gosto engorda. Nos dois sentidos! - E saiu furiosa, depois de gastar quase R$150,00 pra ouvir uma imbecilidade que todo mundo já sabe.
Agora, com seus cachos vermelhos, Dorinha se sentia outra pessoa. Todos na rua a olhavam e nos olhos das pessoas havia novamente a vontade de vir falar com ela. Naturalmente, todos estavam apreensivos, pois já era notória no centro. Quando as pessoas perderam o medo, porém, foi bem pior do que escutar as velhas cantadas...
-Menstruou pela cabeça, foi?
-Que tal vender o espaço nas suas costas pra publicidade?
-Sorte sua que está no Rio! Se fosse em São Paulo, você seria multada pela lei dos outdoors!
Era isso... A gota d'água. Iria apelar ao seu último recurso: O Garage (Momento cultural: O Garage, como muitos nativos do Rio sabem, é um lugar esquisito, onde só toca música de gente que dá a mão pro capeta ao atravessar a rua. Perto da Vila Mimosa, que, como é conhecimento geral, é um grande puteiro a céu aberto, propiciando um... ahem... primoroso "desjejum" para os habitués que saem do referido lugar já quase pela manhã. Frequentado pela nata do mangue local, é comum encontrar criaturas de todas as espécies copulando aleatoriamente ao mais puro norwegian true black viking glammer folk satanical argentinian paradoxal death metal). Vai dizer que você não ficou aliviado desses parênteses terem terminado?
No Garage havia um bar e a balconista era do mal. Era tipo desses marinheiros que têm um "I love mom" tatuado no bíceps que tem a grossura da sua coxa. Só que com peitinhos. Eventualmente ouvia-se gritos dos cabeludinhos que, inadvertidamente se recostavam no balcão e tinham suas línguas e outros apêndices sugados com uma força terrível. Um atentado violento ao pudor disfarçado de blitzkrieg. Josefa Urubu, ou Zefa Urubu para os pouco afortunados íntimos.
Dorinha ia adentrando o lugar, enquanto uma bandinha tocava ao vivo. De repente, ouviu a trovoada da voz de Zefa atravessando o som da banda:
-Pára essa porra! Para essa caralha! Isso aqui é um bar, porra!
-Que houve, Zefa? - perguntou o vocalista, se cagando todo.
-De quem é essa merda de batata fritas que pediram? Isso é um bar, porra!
Enquanto o pobre infeliz retirava sua batata e sua dignidade no balcão, Dora adentrava o recinto, novamente ao som da banda. Logo foi abordada por um sujeitinho magrelo com uma camisa alardeando uma estampa e um nome ininteligível.
-E aí, gata, tá afim de um teco? - Estendendo a mão com um baseado.
-Vem cá, você não é muito velho pra estar aqui?
-E você não é muito gorda pra ser exigente?
Um a zero. Nocauteou o babaca e continuou andando.
Eis que, quase que sobrenaturalmente, Dora sente uma sensação de formigamento em seu dedinho mínimo do pé esquerdo. Sensação que normalmente precedia uma cantada infeliz. E lá ela se confirmou. Uma dessas criaturas nascidas da união de Belzebu com Michael Jackson, conhecidas como góticos, vinha em sua direção. A roupa do sujeito poderia facilmente ser usada pelos ninjazinhos do Mortal Kombat e seu cérebro na fabricação de carvão vegetal. Incorrigivelmente românticos e depressivos, o rapaz logo se pôs a falar, enquanto encostava os dedos na boca da gordinha.
-Você é a mais bela das belas flores, uma rosa. Quer florescer no meu jardim?
Ela sabia que era mais forte. Muito mais forte do que ela. Não podia resistir.
-Com um regadorzinho desses aí eu ia é morrer de sede!
-Eu moveria o firmamento para te fazer sorrir. Se te visse nua, morreria feliz.
-Não precisa tanto, se eu te visse nu, morreria de rir.
Enquanto o garoto se afastava pra ir chorar e se suicidar em um canto, um motoqueiro aborda nossa querida ruiva.
-Graças a deus, alguém que não é uma franguinha de 17 anos!
-Você também não é muito moleque.
-É, é... eu sou médico legista. IML, sabe, é um saco. Aí eu venho pra cá, pra ver como existe gente que tem a vida mais merda do que a minha. E você, faz o quê?
-Secretária. De mim mesma. Dora, prazer.
-Odin. Na verdade, é Odilon, você ia descobrir mais cedo ou mais tarde. Mas pode usar Odin, mesmo sabendo desse fato.
-Então, er, Odin, o que você faz no IML?
-Ah... sabe, devem chegar uns 20 ou 30 cadáveres por dia pra mim. É aquela coisa... não tenho saco pra analisar a causa mortis de tudo. Então se um cara foi envenenado e depois tomou um tiro, a causa mortis é um tiro. Se tem um buraco de bala, foi homicídio por arma de fogo. Quer saber, nos dias que eu estou mais estressado, se o cadáver estiver bonitinho e limpinho, eu mesmo meto uns tiros no presunto.
-Caralho! Mas isso é loucura!
-Loucura? Louco é quem ouve vozes, quem conversa com gatos, quem tem sonhos molhados com a Dercy Gonçalves...
-Er... bem, Odin, eu acho que vou dar um pulo ali no cadafalso e já volto.
-Tá show, gata.
Aquilo era um inferno! Como pôde se rebaixar àquele nível!? Ao menos saira dali com o ego flutuando. Com a quantidade de aberrações naquele lugar, Dorinha era quase uma deusa. Além do mais, sua mente funcionava ainda bem o suficiente para pensar em cortadas morbidamente eficazes. Decidira que estava na hora de por outro plano em prática. Iria assediar figurões de dentro da empresa.
-Oras, Dorinha, você sabe que há seis fases em um projeto de uma pessoa que passou dos quarenta: Entusiasmo. Desilusão. Pânico. Busca dos culpados. Punição dos inocentes. Glória aos não participantes. Não quero te desanimar, mas você sabe que arrumar um partidão aqui dentro vai ser foda...
-Jéssica, como dizia minha mãe: uma partícula em movimento no ar sempre encontra um olho aberto. Eu não sei se serve exatamente pra essa situação, mas eu vou acertar o olho de alguém. Seja com um soco ou com a minha metáfora.
-Sem querer te colocar pra baixo, amiga, mas eu acho que você está indo com muita sede ao pote.
-Uma coisa que eu aprendi: se a vida comer seu cu, cague no pau dela! E ninguém comeu mais meu cu que a vida, Jéssica! Eu passei o inferno esses anos! Porque no pau cagado, joga-se um álcool... já o cu comido não tem mais volta. É uma questão de honra! Contanto que a vida tenha uma experiência ruim o suficiente com você, ela nunca mais vai querer te foder. Já pensou, toda vez que ela ver seu rabo ali apontado pra cima ela vai se lembrar: "porra... esse viado já cagou meu pau... larga isso de lado". Vai dar certo, cara, pensamento positivo!
Jéssica agora tinha pintado seu cabelo de vermelho também. Leu em uma revista feminina imbecil qualquer, que os homens sentiam uma lascívia inexplicável por ruivas. Como ela jamais conseguiu autorar um pensamento, decidiu que isso estava arbitrariamente certo. E até que funcionara. Duas semanas depois, já estava dando pro filho do presidente: Jeferson Roberto. Deveria ser na surdina, claro, afinal, o cara tinha dinheiro. E a língua presa. Além de ter 1.55m de altura, contra os 1.81m de Jéssica, que, pra completar, sempre usava uns saltos enormes. De fato, o plano de Dora já rendera glória a quem dele não havia participado. Afinal, além de tudo, Jeferson ainda era senador - daí a punição dos inocentes: os contribuintes pagando suas jóias.
Dora começara se oferecendo para os caras do marketing. Não conseguiu dar pra ninguém, mas conseguiu tirar o emprego de um, quando sugeriu uma campanha publicitária para o papel higiênico Flocos de Neve: Sua única chance de esfregar neve no cu, enquanto mora nos trópicos.
Mas como todo macho, Jeferson, vulgo Jefinho - que agora não parece mais tão másculo assim - não conseguiu guardar segredo sobre comer alguém, ainda mais sobre um mulherão como Jéssica. Geraldo, seu assistente, foi o primeiro a saber.
-Cheraldo... que cu! Que cu, meu teus to céu!
-Porra, chefe, isso é quase esfregar um filet mignon na cara de um leproso morrendo de fome.
-Qual é, Cheraldinho... Agora que saiu esse auxílio pernoite, vulgo auxílio motel pro povão, é que a chente vai mesmo foter com o tinheiro to povo. Ahn! Foter! Boa hein! E tu pode usar o meu cartão pra isso! Agora, não sei porque ela sempre anta com aquela ruivona chicante. Que mulher enorme! Não foi ela quem fez o negócio da nefe no cu?
-Ela mesma... e realmente é grande. Vem cá, esse negócio dessa tal Jéssica? Não estava rolando uma boataria que o pai dela tinha feito um trato que iria casá-la com o filho de um amigo dele lá, assim que o moleque fizesse vinte e um anos, se ela já não estivesse casada até então? Vai ficar essas por essas?
-Olha, isso é uma petra no meu sapato. Eu nunca pensei que ia tizer isso, mas eu acho que vou casar com essa mulher.
-Então é bom correr, chefe. Digo, o avião está saindo em duas horas!
Enquanto Jeferson partia em viagem, Dora acabou esbarrando, tá, atropelando Geraldo no corredor. E daí adveio uma amizade e um interesse... Em pouco tempo, Geraldo só tinha olhos pra Dora, que, sabe-se lá como diabos não havia destruído a coluna dele com suas tentativas débeis de reproduzir o kama sutra. Então recebeu a ligação.
-Cheraldo! Cheraldinho! O pirralho faz aniversário semana que fem! Eu só volto ta Chechênia (isso eu realmente pagaria para alguém com a língua presa dizer) no fim to mês!
-Ai, caralho! Puta que pariu... eu vou ver com o jurídico o que dá pra fazer e já te ligo!
Minutos depois.
-Chefe! Chefe! Dá pra casar por procuração!
-Que porcaria é essa que o churídico arrumou?!
-É o seguinte, chefe, você me outorga poderes através de um documento que tenha fé pública e eu caso pra você, com quem você escolher!
-Belessa, Cheraldinho! Eu sapia que você não me deixaria na mão!
Três dias depois, o documento chegou às mãos do assistente. Imediatamente ligou para seu chefe.
-Chegou! O senhor quer se casar com quem mesmo?
-A ruivona, Cheraldo! A ruivona!
-Qual delas mesmo chefe?
-A do cu, Cheraldinho, quem mais, porra?!
Tomado por um medo de que seu chefe estivesse de olho em sua mulher, Geraldo tenta ratificar.
-Mas, mas... A mulher é grande mesmo chefe, tem certeza?
-E eu lá tenho meto de altura, caralho? Banco e escata é pra essas coisas! Casa logo!
Com isso, Dora tornou-se meeira de uma fortuna de quase quinhentos milhões de dólares, que foi devidamente dividida assim que saiu seu divórcio. E foi assim que Dora cagou no pau da vida, com toda a experiência servindo de base para seu novo livro de auto ajuda, que já vendeu milhões de exemplares mundo a fora: "Nunca atribua à malícia o que pode ser explicado adequadamente por estupidez".
Pra bom entendedor, meia encoxada basta.
-Além de fresco, queria um pau enfiado pela sua traseira também?!
Dorinha tinha um problema. Nunca conseguia ouvir um elogio, ou uma estupidez, sem abusar do sarcasmo e cinismo. Normalmente os diálogos com Fred não passavam de uma troca de grosserias. Na verdade era só uma oferta unilateral de grosserias. O office boy era simplório demais para pensar em qualquer resposta à altura e, como normalmente só passava pela portaria para bater ponto ou fugir do serviço dizendo que ia à Pavuna entregar qualquer coisa que ninguém se importava com o que era, era quase um ritual sociológico.
Dorinha já trabalhava como recepcionista do Edifício Getúlio Vargas, que, além de ter um nome super original, ficava num dos lugares mais quentes (e não no bom sentido) da cidade, a Avenida Rio Branco, há quase cinco anos e, em todos esses anos, nunca havia tomado uma única cantada para a qual não tivesse uma resposta, normalmente estúpida, justamente como a mãe lhe ensinara. Ainda tinha pesadelos com o primo de Fred, um gaúcho relativamente esquisito e que provavelmente era office boy em sua terra natal. Sapopemba do Norte, ou qualquer coisa do tipo. Viera ao Rio de Janeiro de férias no último carnaval e, de um certo modo, até que não era tão feio, exceto pelos olhos que, ao mirar um mapa mundi, apontava um em direção à Austrália e o outro para o Alaska. Ao mesmo tempo. Mas era totalmente intragável, porque teimava em se valer de cantadinhas e gracejos escrotos.
Durante esse meio tempo, usou de todas as artimanhas possíveis para tentar se postar de joelhos diante de Dorinha, fosse em adoração, pedido de casamento, humilhação ou tentativa de colocar a boca em lugares impróprios. Mas, na falta de inteligência, que lhe era peculiar, só lhe sobraram as cantadas muito porcas, que provavelmente eram tradição de família.
-Gata, você é linda demais, só tem um problema... a sua boca tá muito longe da minha...
-Questão de higiene, garoto!
-Que é isso, meu anjo? Qual o caminho mais rápido pra chegar no seu coração?
-Cirurgia plástica, lavagem cerebral e uns três meses de malhação.
Era fácil demais, pensava Dorinha, certamente se escrotice fosse modalidade olímpica, teria cifose (que, segundo minha mãe e o aurélio, significa "corcundismo") de tantos quilos de ouro no pescoço.
Certa vez, uma família de caipiras paulistas passou pelo edifício, deixando Dorinha atordoada. O pai, senhor já de certa idade, numa tentativa muito peculiar de disfarçar as olhadelas para as pernas e coxas das mulheres que passavam, aparentava estar simulando ataques de mal de Parkinson, que até seriam plausíveis se ele não tivesse tentado morder o traseiro de uma mulata passando pela calçada, veio, aos tropeços, pelo grande hall de entrada, até o balcão da recepção.
-Tarde, moça!
-É dia ainda, senhor. Bom dia.
-É tarrrde! Já até almocei! Já passa das dez da matina!
Contendo um "puta que pariu" sussurrado atráves de um sorriso daqueles que só recepcionistas podem dar, tentou se recompor.
-Boa tarde, senhor. Em que posso ser útil?
Ao dizer isso, adentraram o que deveriam ser os filhos, ou os animais de estimação do velho. Com a quantidade de uivos, baba e coisas esquisitas na boca das criaturas só poderiam ser duas coisas: crianças ou lobos. Eram dois garotos pequenos, de talvez uns 9 anos e um já de 21. Todos os três pareciam estar no cio.
-Óia, paai! Quanta mulher boniiita, paai! - Uivou um dos menores.
-Fica quieto, moleque, quer espantar o povo?
Novamente, através dos brancos dentes, quase um sibilar por detrás do balcão - Mais do que um bando de neandertais descongelados correndo com pedaços de mamute entre os dentes pode espantar?
-O que foi que a senhora disse? - Intercedeu o maior deles - Será que eu já não te vi em algum lugar, moça?
-Claro! Eu sou a recepcionista da clínica de doenças venéreas. Não se lembra?
Ruborizando, o rapaz deu as costas e apoiou os cotovelos no balcão, sussurando para seu pai.
-As mulheres daqui num sabem é brincar, viu! Eu juro que nunca fui nesse lugar antes, pai. O gado lá de casa tá limpo! Confia em mim!
Nesse meio tempo, uma pequenina e encurvada senhora passara pelo hall em direção ao elevador. Ao entrar e se fecharem as portas, o indicador digital logo começou a subir do 1 até o 9 e então de volta ao 1. Ao se abrirem novamente as portas, uma ruiva lindíssima, dessas de anúncios de clínicas estéticas desfilou até a saída. Todos os machos do recinto olharam admirados. Os lobos do senhor caipira mal se contendo.
-Que maquinário do diabo é esse, pai? Pega a mãe lá e coloca no número 20 que até eu pego!
Tomando um cascudo no topo da cabeça, o menorzinho de todos foi se esconder no meio das pernas do irmão mais velho, quase chorando, mas sem desgrudar os olhos do traseiro da ruiva.
-Mas, então, moça, pode me dizer qual é o andar do Doutor Carvalho?
-Décimo segundo, senhor. Tenha um bom dia.
O maior alívio de Dorinha era quando as pessoas iam embora. Ser recepcionista era o pior castigo que um misantropo poderia ter. Seu consolo, afinal, é que a maioria dos homens que vinha ao prédio, normalmente ia visitar o Doutor Carvalho, que era proctologista. e conseguia pegar uma bola de basquete com uma só das mãos. Certa vez tinha dito a Dorinha que excesso de agressividade podia ser explicado, muitas das vezes, por excesso de testosterona. O resto dos consultórios era só de obstetras e ginecologistas, o que justificava a quantidade de mulheres por metro quadrado do imóvel.
Dorinha, porém, semana passada foi parar no hospital. Foi espancada gravemente em uma boate. Fruto terrível de seu humor. Ao dançar inocentemente na pista foi abordada por um rapaz semi-alcoolizado junto com um outro amigo que, pelas caras, não queriam dormir com tanto testosterona (e agressividade) na corrente sanguínea.
-Opa, opa, gatinha, eu quero me dar por completo pra você.
-Sinto muito, eu não aceito esmola.
-Ora, vamos parar com isso, nós três estamos aqui nesta boate pelo mesmo motivo. - Começou o outro amigo.
-É, pra pegar mulher... - Replicou Dorinha.
Visivelmente consternado o primeiro a puxou pela cintura e sentiu um volume estranho no bolso dela. O celular, ou a carteira, pensou ele.
-Então, o que você faz da vida?
-Eu sou travesti.
Day after...
Andaram, nus, até alcançarem um matagal, onde se deitaram.
-Tipo... meio vazio, né?
-Pois é. Ninguém inventou o cigarro ainda. E eu não posso me enrolar em nenhum edredon, virar pro canto e dormir também.
-Pior. Você vai inventar o ronco cedo ou tarde e eu não vou poder ir pra casa da minha mãe ou pra minha casa, porque agora eu não tenho uma.
-Graças a você!
-A mim? Olha lá, seu ingrato! Vai dormir no sofá hoje!
-Boa sorte construindo um desses pra me mandar dormir lá.
-Acho que acabamos de inventar a discussão de relacionamento.
-Ótimo... como se inventar a idéia de você ter uma mãe não fosse ruim o suficiente.
-Você é um babaca. Até parece que foi ruim assim!
-Você tem alguma noção do inferno que nossa vida vai virar agora? Trepar pode ser bom pra caralho, mas criar filhos não! Esqueceu que ninguém inventou uma porra de uma camisinha, nem pílula anticoncepcional? E que eu não faço a mínima idéia do que sexo tântrico significa?!
-Relaxa... se os tais filhos derem tanto trabalho assim, a gente faz igual teu pai. É só mandar embora de casa.
-Só não pensei que ele ia fazer isso comigo por andar em má companhia.
-Realmente... aquela serpente era uma cuzona.
-Não estava falando dela...
O homem se enrolou numa folha de bananeira e ensejou virar as costas, enquanto murmurava:
-O bom é que não precisamos nos preocupar com ciúmes e papos de ex e tudo mais.
-Como assim? E aquela piranha?!
-Que piranha?
-A tal Lilian!
-Lilith, porra!
-Tá vendo... sabe até o nome direitinho da vagabunda!
-Puta que pariu... desde que a gente saiu da casa do meu pai, a única coisa realmente útil que você me instigou a criar foi a arte de emanar palavrão.
A mulher se pôs por sobre o homem e colocou as mãos em seu peito.
-Quer saber? Cansei! Você é um escroto!
-Ótimo! Só falta você inventar o divórcio agora!
-E vou mesmo!
-Só tem um problema, meu bem. Não existem advogados! Ninguém vai se beneficiar. Qual é a lógica de se desempenhar um ato em que ninguém ganha?
De repente, ouviram um farfalhar no meio do mato, um ruído muito característico, daqueles que as cobrinhas dos desenhos da Disney fazem. Uma serpente preguiçosamente se arrastou sobre seu ventre, deslizando até perto do pé da mulher, sussurando em um sibilar quase carioca:
-Advocacsssia? Hm... masssh que idéia maravilhossssa a de vocêsssh!
-Quando é que alguém vai inventar um letreiro de "proibido a entrada de animais"? - Disse a mulher revirando os olhos.
-Olha os modos, porra! Não sabe que é falta de educação falar assim com cobras quando você não inventou o soro antiofídico ainda?
-Eu poderia mediar a dissshputa de vocêsssh... por um preçssso, claro... ssshh...
-Ih... acho que além da filha da putagem, você acabou de inventar o sotaque escroto, meu amigo escamoso... vamos, divirta-nos, fale "três xis dois"! - Riu-se a mulher.
-Trêixssh, xíxsh, doixsh?
-Hahahaha! Acabei de inventar a escrotice gratuita!
-Não vejo graçssssa nissso...
-Deixa pra lá... você acabou de nos ajudar a elaborar o conceito da reconciliação por fator imbecil externo... Agora, se você quer saber, tem uns 7 ou 8 paraísos no caminho pra cá... vai que você não consegue vender essas maçãzinhas da branca de neve pra mais alguém... às vezes fica chato aqui sem ninguém pra me ajudar a criar o futebol ou o papo de homem.
A serpente, ávida por enganar (e fazer sabe-se lá mais o quê - afinal, a zoofilia haveria de ser inventada) mulheres alheias, sumiu no meio dos arbustos, indo em direção à trilha que o casal tinha deixado.
-Rápido, mulher, venha aqui e me ajude com isso!
-O que foi? Por que a pressa?
-Tenho que dar um jeito de inventar um caminhão e o atropelamento rápido!
-Hm... acho que é uma boa idéia... acho que seu pai é um imprestável. A única coisa que ele inventou para nós foi a visita indesejável. Vem cá... tem outros paraísos por aí mesmo?
-Não seja tola. Foi só uma desculpa.
-Ah... igual àquela vez em que eu disse que estava com dor de cabeça? Ou que eu estava menstruada?
-Ou que sua mãe iria vir dormir aqui em... Caralho! Como fui estúpido!
-Ah, benzinho... tudo bem, não te acho estúpido por não ter se tocado.
-Vamos parar com esse papo de mãe... essa porra me irrita.
Resignados, deixaram-se cair na relva novamente.
-Hey... já descobri porque esse dia está sendo uma merda.
-O que foi, querido?
-Inventamos a depressão pós-coito.
-Day after é uma merda.
-Cala a boca. Estou de ressaca moral.
-Aff... Acho que é hora de inventar o Ricardão.
Caralhos!
Dedicado à minha mãe, pela ajuda na pesquisa. Não, minha mãe não precisa de caralhos e eu não penso em caralhos quando a vejo - na verdade, não penso em caralho nenhum. Não metam minha mãe no meio, para que eu não precise meter no meio das vossas.
Fato consumado é que os palavrões são muito mal vistos. Tanto pelas normas cultas de linguagem, quanto nos discursos tidos como, convencionemos, sérios. Mas o palavrão sempre carregou uma força impressionante, seja como interjeição das mais potentes ou então como advérbio de intensidade. Afinal, quem nunca se pegou dizendo que determinada cerveja era "boa pra caralho" ou então soltou um "puta que pariu" frente a uma questão impossível de se resolver em uma prova?
Pensando nisso, fiz uma pesquisa para chegar exatamente a quais situações históricas se mostrariam inimagináveis sem ao menos um mísero palavrão. E, espantosamente, isso se mostrou muito mais fácil do que o imaginado. Um dado ainda mais surpreendente, porém, foi o da potência do caralho (sem ambiguidades, por favor). Caralho é, sem dúvida alguma, o palavrão mais usado (insiram aqui, agora, suas ambiguidades). Vamos enunciar então alguns dos mais célebres "Caralhos" soltos ao longo da história, sem fins reprodutivos.
Em décimo lugar, temos, em 1945, com a famosa bomba atômica, o desespero do prefeito de Hiroshima com seu "Que caralho é isso?"
O General Custer, em 1876, durante a batalha de Little Bighorn, ao se borrar todo nas calças depois de perceber a desproporção na qual sua tropa de 208 homens estava contra um contingente de 1800 inimigos, com seu famoso "De onde caralhos todos esses índios vieram?" merece um bondoso nono lugar.
Einstein, já em 1938, ao editar sua nova obra Evolução da Física, mereceu o oitavo lugar quando disse "Caralho! Qualquer idiota conseguiria entender isso."
No sétimo lugar, em 1921, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trinidad Ruiz y Picasso, com seu nome tão comprido quanto o de príncipe português, apareceria com vários desenhos da mãe de seus filhos, e, numa eloqüência digna dos príncipes supracitados, nos brindaria com um forte "Parece para caralho com ela, não parece?"
Voltando ao ano 1314, achamos nosso sexto caralho na boca de Jacques de Molay, tido como o último grão mestre da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo, ou, para os mais românticos, os cavaleiros Templários. Não entremos aqui na discussão sobre como tudo aconteceu, mesmo porque envolveria teorias conspiracionistas demais, mas, sabendo como ele morreu nas mãos da Santa Inquisição, chegou até nós sua última frase: "Isso queima pra caralho!"
Mostrando agora o lado das artes, temos Michelangelo Buonarroti, em 1508, ao ser contratado para pintar o teto da Capela Sistina pelo papa Júlio II. Figura em quinto lugar com um incrédulo "Você quer O QUE no caralho do teto?!"
Como provável quarto lugar (pois pode ser considerado um caralho fictício - não pelo fato de ser mulher, mas vejamos isso logo adiante), temos Amelia Mary Earhart, a primeira mulher aviadora a cruzar o Atlântico (obviamente dentro de um avião), que publica seu livro Vinte Horas, Quarenta Minutos em 1928, e, posteriormente, em 1937, quando misteriosamente seu avião some perto da ilha de Howland, enquanto tentava circunavegar a Terra seguindo o Equador, provavelmente deve ter lançado "Onde caralhos estou?"
Em uma escolha nada fácil, no terceiro lugar, temos uma manifestação bíblica, para mostrar que nem santos, nem patriarcas escapam à tentação de encher a boca com um potente caralho seguido de muitas exclamações (novamente, sem pederastia por aqui, seus maldosos). Mesmo que seja impossível precisar a data correta, é muito fácil imaginar Noé encarando os céus e dizendo "Chuvinhas rápidas é o caralho, hein, meu chapa!"
Já em 1999, Bill Clinton arrebata um fácil segundo lugar, com toda sua sagacidade e simplicidade quando pensou "Quem caralhos vai descobrir isso?"
Finalmente, no disputadíssimo primeiro lugar, temos nosso grande Osama Bin Laden, em 11 de Setembro de 2001, com um totalmente inocente "Por Allah! Jamais pensei que eles iam ficar tão putos! Era só um caralho de prédio!"
Importante esclarecer que este trabalho é meramente informativo e que caso haja discordância do leitor em relação à listagem ou à classificação, fiquem registrados aqui os meus mais sinceros votos de que vocês vão para o caralho.
Amigo Imaginário
Mais um da série coisas velhas para caralho®
Quando era mais novo, sempre me senti intrigado com todas aquelas coisas esquisitas que os filmes mostravam. Engraçado como os clichés hollywoodyanos, ou até mesmo os da nossa rede Globo, nunca são, de fato, clichés na prática. Digo, é muito fácil dizer que todo advogado é um trapaceiro, ou que toda loira é burra. Mas poderíamos elencar uma série de advogados e outros juristas que possuem um coração de ouro (e que não me pagaram um só centavo para que eu disesse isso), e um punhado mais de loiras que, não só são inteligentes como cursam o ensino superior, algumas até mesmo na faculdade de Direito. Se bem que isso seria uma demonstração da burrice supracitada... Mas, em todo o caso, não é isso que importa e sim a raridade de um cliché autêntico.
Clichés seriam imagens, idéias ou conceitos muito divulgados. Mas nessa febre global pelo novo ou autêntico, sempre tenta-se criar as combinações mais inusitadas o possível, como chicletes sabor banana com um leve gostinho de maracujá ou bonecas que, ao terem suas barrigas apertadas, falam, numa voz de secretária de filme pornô, a escalação da seleção ucraniana de futebol do ano de 1993. "E daí?" - você me perguntaria. E daí nada, porra! Só que quando eu quiser mascar um chiclete de... de seja lá que diabos de gosto tiver um chiclete sabor cliché, vou ter que comprar numa loja de produtos exóticos. Ou então, quando tiver meus filhos, levá-los para comprar brinquedos cliché numa loja de antiguidades, afinal, daqui a uns 15 anos, as bolas vão se chutar sozinhas enquanto tocam a 9ª sinfonia de Beethoven, por que quem é que vai querer comprar uma bola? Coisa mais estúpida e sem graça!
Mas, ao iniciar a crônica, na verdade, eu pensava em amizades imaginárias. Quer coisa mais cliché que a criança anti-social que tem um amigo imaginário? Aquelas vozinhas nas cabeças das crianças que não tomam remédios de tarja preta e que sempre são super legais nos filmes. É, essa mesma que você nunca ouviu. Nem eu. Mas que é super comum em qualquer filmezinho lado B. E nós, pobres mortais, aqui sem nossos amigos imaginários. Mas, de fato, a internet agora os trouxe até nós! Sim, caro e desocupado leitor, sabe todas aquelas pessoinhas, as quais você nunca viu na vida, que pipocam vez por outra no seu web messenger preferido? Amiguinhos imaginários!
Passa-se horas a fio trocando histórias, fotos, mensagenzinhas e tudo o mais, e, ainda assim, as suas chances de ver essa pessoa são quase nulas! Porque, como dizia mais cedo, não existe mais nada que não tenha "originalidade", o que significa que provavelmente 2/3 dos seus contatos moram a mais de 30 horas de viagem de você, ou então que os pais são de um grupo religioso misterioso que não permite o contato físico com quem não pertença a essa maldita seita, ou você tem sérias suspeitas de que a pessoa pode ser, na verdade, um serial killer querendo te massacrar. Ou um babaca qualquer querendo sexo casual, como na maioria dos casos. Em qualquer uma das hipóteses, se não houver uma esquisitice qualquer, não é um amigo imaginário de verdade.
Afinal, sabe-se nome, ocupações, sexo (ou falta dele - pois vale aqui um adendo sobre carência crônica de sexo do internauta médio) e todas essas outras pequenas nuances que qualificam os grandes amigos imaginários da história da humanidade. Aliás, se alguém pudesse me citar o nome de um amigo imaginário famoso da literatura ou cinema, seria muito bem recompensado com uma bala juquinha ou coisa que o valha.
O mundo não virou de ponta-cabeça, porque essa é uma expressão cliché, mas fez algo possivelmente mais idiota ou chamativo. O mundo deu um duplo mortal carpado. Até mesmo as famílias modernas fogem completamente dos estereótipos. Agora é a mulher quem fica largada no sofá o dia inteiro, bebendo cerveja, e bate no marido quando volta do forró. A esquerda é quem manda no país. A direita não enfrenta mais à esquerda. Os homossexuais, agora, se transformaram em bi-combustíveis, o que significa que todo o cuidado é pouco com sua integridade anal, prezado leitor afoito do sexo masculino cliché.
Se por um lado isso é ruim, por outro é pior ainda, porque em que diabo de coisa você vai acreditar para ter uma vida segura? Vai que, na gana de ser original, sua mulher resolveu fazer uma cirurgia de mudança de sexo e agora você está casado com Paulão Pé de Mesa, porque "ser casado com uma mulher, todos os heterossexuais masculinos podem ser, não é, amor?".
Mas nem tudo são lágrimas, porque podemos, finalmente, ser todos pessoas originais e ninguém mais vai ser acusado de não ter personalidade. Oras, ser uma cópia do Sérgio Mallandro, só que com os seus próprios defeitos e limitações físicas e mentais (cumuladas com as dele) é uma excelente demonstração da síntese dialética pessoal moderna - e de coragem digna do mais macho dos machos também, vá lá.
Até mesmo esse tipo de cliché, considerada trash outrora, é cult (ou pseudo-intelectual) hoje em dia. O brega é hype! Sérgio Mallandro, Gretchen, Sidney Magal, Sílvio Santos, o palhaço Bozo e o palhaço Lula são objetos de cultos religiosos.
No fim das contas, pensando melhor, escapar do cliché tornou-se o cliché mais poderoso já visto na humanidade. Agradeço aqui a deus, diabo, odin, exú caveira ou qualquer outra entidade tosca do gênero por eu aceitar, feliz, os meus clichés pessoais. De dois males, o menor. Nada pior do que cair na esteira de um cliché.
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Por fim, lembrei-me de um amigo imaginário de alguém que eu conheça. Minha mãe vivia por dizer o nome dele em todas as ocasiões possíveis, e, lembro-me uma vez, quando afinal fui perguntar sobre ele ao meu pai.
-Pai, o que é deus?
-Sabe quando você fecha os olhos e pede muito alguma coisa, filho?
-Uhum.
-Pois é. Esse é o sujeito que te ignora.
Stalingrado, mano?
Observação (sim, eu gosto delas): Eu sei que todo mundo aqui já está de saco cheio dessas observações no início dos textos. E também estou ciente de que elas são mais feias do que peidar na missa, mas, como é totalmente desnecessário que eu as faça (nem que seja pra dizer que são ignoráveis), eu as farei por isso mesmo. Como ficaram sabendo (ó pretensão!) no post anterior, estou republicando textos antigos que foram destruídos pelo blogspot. Este, em especial, foi inspirado em um apanhado de idéias de uma série de amigos entregues à bebida - que tem uma parte muito importante em todos os processos criativos desse blog. Recomendo bastante uma coisinha chamada Jack Daniels a todos que estiverem com dificuldades para escrever, brigar, sociabilizar-se ou até mesmo vomitar. Sim, isso foi pra vocês, suas anoréxicas.
-Vejo que João finalmente chegou. Podemos abrir a 61ª Reunião dos Veteranos de Stalingrado!
Os homens truculentos assentaram-se em poltronas de couro já um tanto quanto gastas. Ao longo de exaustivos 61 anos, a partir de 1946, eles vinham se reunindo na cidade que, agora, levava o nome de Volgogrado. Vindo a perder muitos dos seus com o passar dos anos, afinal, é difícil sobreviver após os 70 anos de idade somente com metade de um pulmão ou com uma bala agarrada na uretra.
Mas este ano seria uma reunião especial. O governo de Moscou finalmente reconhecera o valor do grupo dos senis veteranos e se prestara a enviar um jornalista com o intuito de acompanhar e gravá-lo nos anais russos, sem nenhum fim sexual. Já de posse de um gravador Rolo Uher, um desses produtozinhos do pós-guerra alemão pra tentar levantar o país, porque a verba era curta, e 2 refis de vodka, porque a verba era realmente curta, e porque ele era um bom russo, além de ser uma boa forma de tentar resistir até o final de uma entrevista com um bando de velhos loucos, Stalisnay Vondriakov já se dirigia ao recém-chegado com um tom curioso.
-És português ou latino, meu caro João?
-Sou mais russo do que sua mãe, rapazote! Meu nome é Jigstein Olskosinski Alchevoski Ordaskinski! Mas, como no campo de batalha ficava muito perigoso e demorado dizer tudo isso, me tomaram pelas iniciais e, assim, ficou João.
-Hum... que curioso. Chamavam-te de mais alguma outra coisa?
-De "meu bem", "querido" e "amoreco" nas noites mais geladas... sabe como é, aquele frio, as granadas voando romanticamente, os quinze russos numa casa vazia por três semanas... a solidão bate forte nessas horas!
-Ah, sim... é melhor eu entrevistar os outros, tem muita gente aqui pra ser ouvida.
Desconcertado, o jornalista vira-se para quem parecia ter iniciado a reunião. Era um sujeito grande, com o porte de um urso kodiak, barbas longas até o centro da barriga e, claro, 3 refis de vodka na cintura.
-E o senhor? Era conhecido por algum apelido ou alcunha?
-Você tem muito o que aprender sobre seu próprio povo! Soldado proletário do Exército Vermelho não tem apelido! Tem nome-de-guerra! E sempre nomes que inspirem bravura e compromisso com a causa popular, como Schtalivyenko, o carniceiro do povo, ou Narodnaivolia, a vontade do povo, ou, meramente, Karybno, o miguxo do povo! Mas muitos, a meu contragosto, me chamavam de Socorro. Viviam gritando isso pra mim, mas isso me desagradava profundamente, então eu só sorria e oferecia um gole.
-Entendo - disse o jornalista um tanto quanto assustado, afinal, que espécie de loucos eram esses sujeitos? De fato, só alguém muito perturbado defenderia uma cidade em ruínas, 9/10 tomada por um bando de fanáticos comedores de chucrute que cumprimentavam seu líder como alguém que chama um táxi, à beira de um rio feio e gelado e durante o inverno - algum de vocês ficou conhecido por algum feito particularmente extraordinário?
Um sujeitinho franzino, com roupas cáqui e 2 refis semi-vazios de vodka na cintura, se levantou calmamente, e, numa voz rouca de quem fumava desde os 5 anos de idade disse, com mais pausas do que seria humanamente possível:
-Eu costumava, sabe, levar as batatas pro zoológico municipal... era lá que a gente, hum, fazia a destilação e daí a... er... vodka que alimentava nosso batalhão. Aí me chamaram uma vez de Batador... era um amigo meu que estava... ahn... gripado. Talvez ele quisesse dizer Matador, porque eu atirava muito bem, modéstia à parte, sabe? Ainda mais quando estava bêbado... ninguém deve ter batido minha marca... eu sempre conseguia achar os alemães disfarçados de russos dormindo dentro dos nossos sacos de dormir à noite. Até hoje me chamam de, hum, Batador pelo zoológico da cidade... mas o meu, ah, amigo conseguiu se recuperar do resfriado, sabe? Só morreu de alergia depois... ironicamente ele era alérgico às... às batatas. E ao tigre de bengala do zoológico e que se bem me lembro era o único animal que parecia estar realmente vivo.
-Ah, sim, muito interessante, senhor?
-"Imbecil" era como me chamavam, mas só o oficialato. Meus camaradas da Infantaria demonstravam maior respeito e, no clima do socialismo soviético e proletário, só me chamavam de "seu Imbecil".
-Ahn... certo... Alguém mais?
-Eu - falou um outro sujeito magro, de rosto visivelmente cansado e um refil de vodka às mãos - Deram-me um rifle sem munição reserva e, quando minhas balas se acabaram, tive que ficar apontando para os alemães e gritando "pou!". Matei 53 e ganhei uma medalha. Sorte a minha esses alemães serem todos cardíacos!
Visivelmente assustado com a insalubridade mental do senhor, Stalisnay ainda resolve perguntar o nome do veterano.
-E como o senhor se chama? Só para constar no registro?
-Mantive-me anônimo - falou circunspecto - mas costumavam me chamar de Lênin, que era meu nome mais conhecido. Tive que forjar minha morte e ir para a Inglaterra, onde mudei para Lennon, mas continuei subversivo e novamente tive que forjar minha morte. Minha próxima identidade se tornará pública quando a próxima morte dramática acontecer.
-Tudo bem, senhor... er... Lennon... Alguém mais gostaria de contar algum feito?
-Eu ganhei no concurso de beber água.
-Em que isso seria um feito extraodinário, senhor... er?
-Yuri. Gagarin. Era assim que era conhecido. Eu e 90% dos Yuris filhos da mãe Rússia. E um concurso de beber água é uma prova de hombridade, senhor Vondriakov! Você acha que um membro do Exército Proletário Vermelho conseguiria sobreviver mais de 2 copos de qualquer coisa sem tomar ao menos um de vodka?
Embasbacado, o jornalista começa a se levantar e passa a mão em seu gravador. Um dos veteranos mais próximos, que era cego, o interpela.
-Ei, rapaz! Que diabos de coisa é isso que você está pegando da mesa?
-É um Rolo Uher. Um velho gravador, herdei de meu pai... ele adorava comprar todas essas coisinhas alemãs, se bobear, comprou até minha mãe. Ela era de Munich.
-É o que?!
Fim da gravação.
Pero que soy yo!
Obs.: De início, que os leitores sérios ignorem essa observação. Por algum motivo satânico e obscuro, esse blogspot maldito sumiu com todas as minhas postagens do ano passado. Como eu tenho pencas de prazos processuais estourando e pipocando por aqui, vou publicar novamente essas esquisitices velhas, mesmo porque são textos mais curtos e com isso espero parar de receber reclamações do tipo "ai ai, eu sou limitado e não consigo comentar em posts que tenham mais de 10 linhas ou que não tenham uma figurinha." Tudo bem que eles continuam não tendo figurinhas e não têm menos de 10 linhas. Mas aí já não é problema meu.
Que atire a primeira pedra, lança, machadinha ou judeu qualquer um que nunca tenha ouvido falar do atrito eterno entre brasileiros e argentinos. Dizem alguns especialistas, que tudo começou numa cidadezinha que faz divisa com a Argentina chamada Três Passos, no Rio Grande do Sul.
Tinha, nessa cidade, um padre chamado Juan Frederico que, como todo bom protagonista latino de estórias de segunda mão, possui um nome composto. O padre Juan afirmava peremptoriamente ser brasileiro. Apesar de ter nome argentino, pais argentinos, ter estudado em um seminário argentino e ter toda a cara de quem vai comer a sua mulher, que todo argentino convincente tem.
Durante um bom tempo vieram a especular que o então padre só abraçou o celibato e aderiu ao ódio da torcida brasileira porque foi passado pra trás pelo proverbial e literal ricardão de sua história pessoal: Júlio Ricardo. Este era um argentino típico que fazia churrasco, tomava vinho e dançava tango. Tudo ao mesmo tempo. Encantada pelos dotes de Júlio, a então mulher de Juan deu-lhe com os pés na bunda e fugiu com o sujeito. Como todo argentino e gaúcho que se preze, Juan posou de macho até o fim. Até mesmo na hora de se consolar freqüêntando saunas gays. Sabem como é... "estoy aqui, pero que no soy tchola!"
Viu a saída para salvar sua honra, então, espalhando a história de que sua mulher, na verdade, era uma cigana, e, tomada pelo horror da devoção da fé de Júlio, preferiu fugir com outro homem que não prestava as devidas homenagen ao Senhor. Afinal, é melhor ter a fama de quem não fez o serviço do que a de tê-lo feito mal.
Abraçou então a Santa Igreja para que não recaísse dúvida alguma sobre sua caridade, temor a Deus e fé. Logo que assumiu a paróquia de Três Passos, padre Juan ganhou notoriedade, sobretudo na eminência de jogos da seleção brasileira de futebol. Suas homilias tinham uma paixão e um fogo quase divino que incitava os brasileiros a massacrarem os argentinos. O único problema era que ele fazia isso literalmente.
Em uma vez, na véspera da Páscoa, padre Juan contava sobre a crucificação de Cristo. Adorava toda espécie de teoria da conspiração, e, muitas vezes se pegava contemplando sobre a figura do Santo Graal e sobre a "lança que sangra" - a arma usada por Longinus (na verdade, São Longuinho para aqueles que foram criados com a avó. E, não, ele não dava três pulinhos pra achar as coisas. Ele matava. Então, da próxima vez que sua vovó te disser para procurar as coisas dizendo "São Longuinho, se eu achar, dou três pulinho[s]" conte essa história triste pra ela - voltando à estória; mesmo apostando que você não lembra o que eu dizia antes de abrir esse parênteses... tá, pode voltar e olhar) para rasgar os flancos de Jesus. Decidiu então chocar seu público nessa ocasião, com uma demonstração de "conhecimentos ocultos".
-Jesus estava crucificado e praticamente morto, quando um soldado rasgou-lhe o flanco! E da ferida aberta do lado de seu corpo jorrou água! É claro que não há ninguém tão vil a ponto de fazer isso com um homem já nesse estado a não ser um argentino! Longinus, o soldado romano era um argentino, tão claro quanto a água pode molhar!
E a pancadaria foi geral dentro da igrejinha.
Na semana posterior, padre Juan voltou com outra polêmica homilia. Contava sobre Zaqueu, o cobrador de impostos.
-É claro que naquela época e em época qualquer, nenhuma figura é tão odiada quanto a do cobrador de impostos! A gente vê as pessoas com sorrisos no rosto correndo para ir a festas, à derrota da Argentina na semana retrasada e até mesmo para a Igreja às vezes, mas nunca ninguém foi correndo e cantalorando porque ia pagar impostos! Isso é coisa do encardido! E, por isso, aposto que esse Zaqueu era, sim, um argentino de mão cheia - e cheia de dinheiro alheio!
Dessa vez, as pessoas já haviam se munido de enxadas, picaretas e demais ferramentas do gênero. A briga foi muito mais grave e, naturalmente, a culpa era de um argentino.
As autoridades locais chegaram a um consenso de que aquilo deveria terminar antes que houvesse danos maiores. O governador foi ter com o bispo, de modo que, caso aquilo não cessasse logo, fosse dado um jeito de remover o padre daquela paróquia.
Na semana posterior, estavam sentados nervosos no banco da frente o bispo, o prefeito, o governador e várias outras autoridades. Ouvia-se o rufar de tambores e até cornetas dentro da igreja. Trincheiras haviam sido montadas com os bancos e os uniformes de guerra eram as camisas das duas seleções. A quem olhasse desatentamente, aquilo lembraria menos uma missa e mais um baile funk com seus lado A e lado B embalados por uma belíssima melodia do batidão "Eu louvarei a meu Senhor".
Finalmente, o padre subira ao altar, e, já bufando, os argentinos olhavam cheios de tensão para o padre traidor. Neste dia, falaria sobre a última ceia. Começou chamando o coroinha para um canto e deu-lhe instruções as quais ninguém nem prestou atenção. Chegada a hora da homilia, o silêncio era sepulcral. Quase tão quieto quando a Avenida Rio Branco depois de uma derrota da seleção para os hermanos numa final de copa do mundo em pleno Maracanã. Começou o padre:
-Então Jesus disse: "Um de vós irá me trair!"; e Pedro perguntou: "Porventura sou eu, Senhor?"; ao que Jesus replicou: "Não, Pedro!"; veio então Mateus a perguntar: "Porventura sou eu, Senhor?; e Jesus disse, "Não, Mateus!; Então, Judas disse...
O padre ficou estanque e cortou seu discurso abruptamente, ao que o coroinha ao fundo do altar veio a completar em plenos pulmões:
-Pero que soy yo!
The Devil went down to Rio - Parte III
Pedindo perdão pelo atraso ABSURDO de quase um mês (aquela desculpa babaca de provas, blá blá blá, nascimento de filho, blá blá blá, feriado, blá blá blá, porre descomunal, blá blá blá, morte do Lula, blá blá blá, pedido de casamento, blá blá blá e falta de saco) termino finalmente essa trilogia (com um pouco mais de linhas do que a maioria dos leitores apreciariam) com a aparição mais do que circunstancial do Cabeludo e, claro, muita porradaria. Asseguro a todos que a postagem é grande mesmo porque eu sou babaca e porque trilogias são moda, não há nenhuma receita de bolo perdida no meio do texto para dar sustância, como eu sei que vocês faziam nas provas de filosofia no ensino médio. Com vocês, a parte final: The Hairy one went down to Rio too.
-Ei, quer fazer o favor de sair do meio da rua, cidadão?
-Cidadão? Eu? Ah... mas eu devo andar no meio de todas as estradas, onde o bom e o mau possam me ver e ouvir.
-Que papo caótico é esse, rapaz? Anda, pro passeio, vai!
-Paz, irmão. Eu sou o filho de Deus, aquele que abençoou esta cidade. Coroaram-na até com uma estátua minha, vim para vos salvar.
-Filho de Deus é? E minha mãe é virgem!
-A sua também?
E foi assim que Jesus foi recepcionado na cidade maravilhosa. Uma babaquice qualquer que chamaram de "desacato à autoridade" acabou lhe valendo uma perícia psiquiátrica que o remeteu para o Pinéu. Até que o lugar não era de todo ruim. Claro, se comparado com aquela porcaria que era em Jerusalém antigamente. Aqui tinha 3 refeições ao dia e um negócio esquisito chamado "noticiário" com pessoas dizendo "boa noite" e dando notícias ruins. Mas o mais curioso eram as pessoas retrucando o "boa noite" e ficando mais excitadas a cada má notícia. Digo, os funcionários do manicômio, que eram (dentro da medida do possível) sãos. Seus colegas internos não só não davam a mínima para aquelas notícias, como criavam as suas próprias.
Jesus ficou particularmente amigo de um sujeito que chamavam de Willy. Willy se dizia um super-herói e usava uma saia. É, saia. Na verdade, ele chamava de kilt, mas, como todo escocês está fadado a escutar essa eterna piadinha, ele aceitou o estigma da saia. Viera parar no Rio de Janeiro quando acabou todo o seu dinheiro para comprar whiskey e pagar seu aluguel e só lhe sobraram uns trocados pra comprar uma passagem pro Brasil (qual é, tá achando que é difícil vir pra essa merda?). Quando chegou aqui, descobriu que voltar era bem mais difícil e que só tinha cachaça, whiskey era coisa de magnata. Ficou louco. Literalmente.
Depois de todas as perturbações mentais imagináveis, Willy passou a dizer que era sobre-humano. Seu único ponto fraco, já que todo super-herói tem um, eram armas de fogo. Mas tratou logo de resolver esse problema nomeando Robinson, um pedreiro esquizofrênico, como seu fiel companheiro, tinha os poderes do super-homem. Podia parar balas com o corpo. Uma vez só.
Quando soube que Jesus se dizia o filho de Deus, foi logo puxando assunto.
-Diz aí, Messias, aquele negócio de água pra vinho funciona pra malte escocês também? Eu sei que destilado é diferente de fermentado e tudo mais, mas, poxa, quebra o galho, vai?
-Os dons de Deus não devem ser usados em vão. Além do mais, tem muito daquela coisa fedorenta por aqui.
-Que coisa?
-Como é mesmo aquela coisa esquisita que os brasileiros adoram?
-Samba? Futebol? Auto-depreciação? Corrupção passiva? Preguiça de ler textos muito grandes em blogs?
-Não, não... cachaça!
-Ô, senhor... com todo o respeito e perdão antecipado pela linguagem, mas cachaça é foda! Nem o diabo aguenta com aquilo!
-Sério? Isso é uma informação valiosa para a minha missão aqui na Terra.
-Veio dar um couro no capeta? Pensei que ia rolar todo aquele papo de quatro cavaleiros e destruição e caos e essas coisas todas.
-Não, não... Meu Pai ficou inspirado por uma propaganda dessas de uma loja de departamentos daqui. Casas Baiano ou alguma coisa assim... vocês fazem merda agora e só começam a pagar daqui a mil anos em suaves prestações que envolvem governos estúpidos e estilos musicais deploráveis. Não se preocupe.
-Como assim? É TV aberta no céu?!
-Contenção de despesas, Willy... uns querubins safados torraram uma nota preta com pacotes do Big Brother por pay-per-view... aí Papai mandou cortar.
Quase dois meses depois liberaram o Messias, afinal, ele agia normalmente e ninguém mais se lembrava dos motivos pelos quais ele estava ali. Assim como fazem com todos os internos e presos por essas bandas. Já de posse de suas coisas, ou seja, absolutamente nada, Jesus foi saindo junto com Willy e Robinson que, como notaram, não fala porra nenhuma. Ou, se fala, este escriba tem muita preguiça de relatar, vamos assumir então que, por mais que fale, Robinson não fala nada digno de nota. Assim como faz a grande maioria das pessoas.
-E então, chefia, pra onde é que a gente vai agora?
-Chefia? Eu sou um instrumento do amor de Deus, não sou seu chefe. E a missão é minha, Willy, você não precisa ir junto.
-Qual é chefe? Você tinha doze caras que enchiam a cara contigo antigamente... vai dispensar um que te segue de bom grado agora e que nem te pediu uns trocados pra tomar um porre? Além do mais, eu uso saias!
-E em que isso te qualifica?
-Não qualifica, mas eu fiquei sem argumentos.
-E eles não enchiam a cara comigo! A culpa não é minha se o único retrato que sobrou de todo mundo junto é de uma festa. E, Deus me perdoe, já viu festa sem bebida?
-Tá bom, chefe, eu acredito. Minha mãe dizia que discutir com Deus dá azar. A gente precisa de uma grana... alguma idéia?
-Bem, eu trabalhei de carpinteiro desde novo... e depois de pregador itinerante. Acho que já devo ter o tempo necessário para requerer aposentadoria se considerarmos a insalubridade dos locais de serviço e a invalidez permanente daquele incidente da sexta-feira santa.
-E não é que o Senhor é sábio mesmo?
Dirigiram-se então para o posto mais próximo do INSS. Um sujeito com cara de cu de frango os atendeu, como todo funcionário público que fica na repartição no mês de Janeiro, quando todos os seus amigos estão lhe mandando cartões postais de um lugar bem gelado e sem turistas enquanto ele torra no proverbial Rio Quarenta Graus, tentando se esquivar do calor com um sacolé de 90¢ (inflação é foda).
-Tá de sacanagem com a minha cara né, bicho? Esses documentos são de quase dois mil anos atrás! Vai ter que ir na matriz e renovar essa porcaria! Tá tudo vencido!
-Como assim vencido? Esse cara é o filho de Deus!
-Mas é cada uma que me aparece... Somos todos filhos de Deus. Esse papo astrológico aí não cola! Outro dia veio um espírita dizendo que contribuiu 42 anos numa encarnação passada e que em uma outra foi desembargador! Queria receber integral de vinte e cinco mil! Qual é? Pra cima de mim não, jacaré! Morreu, zerou os prazos! Não tem dessa! Pode voltar do jeito que quiser! Encarnado no cachorro, depois de 3 dias, depois de 5 dias úteis, vindo de balão, se zumbificando. Zerou! Ou seja, morreu, se fodeu!
-Então o que é que eu faço? - perguntou Jesus intrigado.
-Tente não morrer que fica tudo certo! Aí você arruma um emprego legal e volta daqui a uns trinta e cinco anos que a gente resolve.
-Olha, moço, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar fazendo coisas feias pra senhora sua mãe, mas estou pedindo uma aposentadoria pro cara aqui que é filho de Deus! Quebra um galho aí!
-Ai, meu Deus do céu...
-Sou eu! - Jesus levantou o braço.
-Onde está o maldito do Dr. Pascoal pra tratar de uns malucos desses quando a gente precisa dele?
-Pascoal? Você quer dizer Ernesto Pascoal? O gordinho da gaita? - Perguntou Jesus.
-Se o Dr. Pascoal toca gaita eu não sei, mas ele é bem redondinho sim... Por quê?
-Pode me dar o endereço dele?
-Se eu te der, promete que vai sumir daqui e não me perturbar mais com isso de que Deus vai me dar um lugar bonito com vista pro quarto da Marilyn Monroe quando eu morrer se eu te ajudar?
-Deus não mente.
Meia hora depois, nossos heróis chegavam à Cinelândia.
-Já pensou em mandar colocar metrô no céu?
-Se o povo aqui embaixo já reclama de quando cai chuva... já pensou um trem inteiro descarrilhando sobre a sua cabeça? A primeira coisa que todo mundo faz quando é acertado por qualquer idiotice é dizer "ai, meu Deus", mas quero ver alguém chamar meu velho quando fica feliz! Ia ser um festival de "Pai do céu" e "meu Jesus santíssimo" pra tudo que é lado! Lá em cima nossa empresa de comunicação é pior que a Vivo! Ia derrubar o servidor!
-O troço tá tão feio assim, Senhor?
-Pior... a banda larga ficou muito cara e Papai instalou internet discada lá de novo...
-Misericórdia...
-É esse o nome do servidor. O da internet discada é Esperança. Nega-se veementemente a morrer.
-Entendo. O Todo-Poderoso é tão muquirana assim?
-Ele é judeu até hoje. Um dia o flagrei conversando com um rabino que tinha acabado de morrer. O rabino estava se lamentando porque o filho tinha virado cristão... Meu Pai o consolou dizendo que sabia exatamente como ele se sentia.
-Ouch... Acho que chegamos. Sexto andar.
Novamente, depois de insistentes batidas, veio o velho Pascoal à porta.
-Não quero comprar!
-Não viemos vender, Pascoal! Venho por parte do Pai.
-Meu pai morreu há mais de 20 anos, não quero comprar biscoitos de cegos nem de escoteiros.
-Eu sei, ele quase chorou naquela copa do mundo da França. Grande Alfredão... emotivo que só ele.
Os olhos de Pascoal se arregalaram. Ninguém daquela idade deveria conhecer seu pai.
-Perdão, Mestre! Não reconheci de primeira. Esse visual black power lhe caiu muito bem, mas fica difícil mesmo saber que és o Senhor.
-Mas como me reconheceu tão prontamente, Pascoal?
-Ora, se eu recebi uma visita do diabo e lhe quebrei os cornos duas vezes, achei que pelo menos a chefia lá de cima ia me prestar uma cortesia e vir beber comigo! Além do mais, ninguém com menos de 70 anos conhece papai hoje em dia. E sabia que o capeta não ia se vestir tão bem assim. Ele é racista.
-Vocês aqui embaixo só pensam em beber?!
-Também jogamos sueca - retrucou Pascoal.
-Obrigado, Senhor! - Willy agarrou Jesus pela cabeça e lhe deu um beijo na testa, pulou para a cadeira e agarrou o baralho e um copo - Já podemos começar a visita de cortesia dos céus?
-O Senhor não perde tempo em arrumar novos discípulos não é?
-Na verdade era pra ser uma missão solo. Mas acho que é dos desígnios do Pai. Mesmo porque eu devo dar força às minorias também. E não há gente que seja mais alvo de preconceito que os Escoceses. Afinal, usar saias e viver bêbado jogado na sarjeta com gosto de rabo de porco na boca o dia inteiro e realmente gostar disso, de fato causa uma má impressão nas pessoas.
-Entendo... e o outro?
-Robinson? Ah... ele é figurante.
-Pobrezinho! O Senhor é verdadeiramente o filho de Deus! Nunca vi tamanha bondade!
-Meu copo está vazio, senhor anfitrião! - Berrou Willy com impaciência.
-Ah, sim, sim... aqui está... Mas, diga-me, Senhor, o que veio fazer na minha humilde casa?
-Deus me mandou pra achar o diabo e o mandar literalmente pro inferno.
-Hum... Bem, acho que ele virou gari. Eu ganhei uma causa dele e a única coisa que não consegui tirar daquele maldito foi o fedor. Sabe, dizem as más línguas que o diabo, na verdade, não é argentino, mas francês... e daí veio a derrocada dele. Afinal de contas, todo aquele papo de igualité, fraternité e liberteé não me convence... é só uma desculpa pra suruba interracial generalizada. E num país como o Brasil, quem é que precisa de desculpas pra isso?! Fez um sucessozinho inicial bobo até todo mundo se tocar que ele só colocou as mesmas coisas de sempre de um jeito diferente. Brasileiro é burro, mas não é idiota!
-Graças aos céus por ser escocês! - Resmongou Willy.
-Você não poderia fingir compreensão pra eu me sentir melhor?
-Não. Fingir é coisa de viado enrustido ou de mulher frígida. Além do mais, um discípulo do Senhor não pode mentir.
-E beber pode?
-Se não pudesse, o próprio Messias não tinha feito aquela paradinha lá com o vinho! E padre não enchia o pangú durante a missa!
-Esse cara não tem respeito, Senhor?
-Paciência, Pascoal. Willy é incorruptível. Muita gente já se entregou ao diabo por coisa tola. O seu presidente, por exemplo, virou satanista depois que não conseguiu fazer a coreografia do hit "Deus é Dez" do Pe. Marcelo Rossi.
-Quem diria... por causa de um mísero dedo mindinho...
-Há quem diga que foi falta de coordenação motora mesmo. Há outra corrente que diz que ele só aprendeu a contar até cinco. O que importa é que ele não é mais dos nossos...
-Compreendo, Mestre. Mas, o que vamos fazer?
-É uma boa pergunta, Pascoal... mas Willy disse que o diabo não pode contra a cachaça.
-Cachaça? Se isso fosse ferramenta contra o diabo, o presidente não teria sido possuído como dissestes.
-Você acha mesmo? Os ajudantes sempre tem algum poder que o mestre não, tipo o Robinson aqui! - Disse Willy - Meu pai ficava praticamente onisciente quando bebia. Conseguia ver tudo e todos e olha que ele não era esquizofrênico! E onisciência é coisa de Deus, o que significa que ele era tocado pelo Pai quando bebia! Não pode ser coisa ruim!
-Essa foi a coisa mais idiota que eu já ouvi em toda a minha vida. Sério, eu me senti mais burro depois disso - Pascoal tirou a garrafa de perto de Willy - pensava que vocês escoceses eram mais fortes com a bebida.
-E desde quando grau alcoólico é desculpa pra moral flácida ou piadas ruins? Nós somos péssimos com o humor mesmo e admitimos! Agora, me dê duas garrafas de puro malte escocês que eu espanco duas dúzias de skin heads pra defender o Senhor.
-Ó, Pai! Primeiro Pedro com aquela síndrome de Mike Tyson cortando orelhas, agora um cara de saias querendo distribuir porradas. Não podias me arrumar seguidores mais pacíficos?
-Não reclama, Mestre, se ele te arrumar o Clodovil e o Leão Lobo não venha chorando depois.
-Homossexuais não são mais minoria. Os oprimidos agora são os heterossexuais, Pascoal, por isso vocês dois, digo, três estão aqui discutindo e não se agarrando de beijos e abraços.
No dia seguinte, os quatro (não, não nos esquecemos do Robinson) se dirigiam para a avenida Rio Branco, a antiga Avenida Central, no centro (duh) do Rio de Janeiro. Justamente onde havia a maior concentração de lixo por metro quadrado na madrugada carioca, logo, o lugar perfeito para uma aparição do demônio.
Lá pelas tantas, sentiram primeiro o fedor nauseante de dez mil caganeiras e depois avistaram as luzes do caminhão. Os outros garis usavam máscaras de gás por solidariedade para suportar o colega que dizia não poder tomar banho por causa de uma estranha e peculiar alergia à água.
-Mestre, alguém encheu meu cantil com água!
-Fui eu, Willy, pensei que você deveria estar sóbrio para o embate final.
-Porra, Pascoal! Vou começar a mijar dentro das suas garrafas de água! Afinal, eles dão uréia pros bois mastigarem!
-Vocês dois podem parar com isso? Tem um cara com chifres logo ali na frente, você pode mijar na boca dele, Willy.
Quando percebeu quem era que estava ali, parado no meio da rua, como irritantemente costumava fazer sempre, o diabo pulou do caminhão. Gritou qualquer coisa sobre uma misteriosa vontade de cagar e que correria atrás do caminhão depois. O que era um certo alívio para seus companheiros de serviço.
-Ora, ora, se não é o almofadinha cabeludo lá de cima... com um rastafari muito bem feito! E o gordo maldito que me levou à bancarrota! E... um homem de saias? E... e... um figurante!?. Tá de sacanagem comigo né, Cabeludo? Rá! Você já foi melhor com o visual e recrutamento de discípulos. Da próxima vez só falta aparecer com um RPGista e um skatista e contratar o Ronaldo Esper pra te dar um trato!
-Eles são tão bons quanto qualquer outro ser humano sobre esta Terra, cão. Volte para o lugar de onde veio e deixe meus irmãos em paz. Estas paragens já sofreram sua presença por muito tempo.
-Agora, você escrotizou com isso... Maria Madalena até que era aceitável... agora, um cara com barba vermelha e saiote não rola, cabeludo! Vai subindo pra casa que tua moral tá baixa!
-Não vou te pedir novamente, Lúcifer... volta pro inferno antes que dê mais confusão!
-Só saio debaixo de porrada!
Nesse momento o diabo sacou um famoso três oitão da cintura e desferiu um tiro na direção de Jesus. Se fosse possível utilizar recursos de edição de imagem em um texto, haveria um agora. Provavelmente fazendo aquela coisa brega de acompanhar a bala em câmera lenta. É, aquela viadagem que lançaram com matrix e que todos os filmes posteriores copiaram. Até os que não têm armas de fogo.
Os olhos de Jesus brilharam. Não se sabe exatamente com o quê. Deus não tem medo. Isso é coisa de viado. Aparentemente nem Robinson tinha. Com um salto cinematográfico, postou-se entre a bala e o Messias. Robinson era macho. Macho pacaralho. E, agora, um macho morto pacaralho. E, possivelmente, ficaria pra ele aquela suíte maravilhosa com vistas plenas pro quarto da Marilyn Monroe por causa desse sacrifício heróico.
Willy estremeceu. Ninguém mata o fiel companheiro de um super-herói. Não sem levar uma boa coça e merecer pelo menos uma edição especial da revistinha. Mas Willy estava impotente. Não tinha uma única gota de whiskey em seu cantil. Jesus o encarou... Pousou suas mãos sobre o cantil. Willy sabia o que significava aquilo. Abriu o cantil e tomou-o todo em um gole só. Era, com toda a certeza, a melhor porra de whiskey que já havia tomado na vida - e não foram poucos! Uma força sobrenatural tomara-lhe os punhos e, agora, ele sabia como Asterix se sentia.
-Então vai ter que ser na porrada! - Bradou em plenos pulmões.
O diabo, incrédulo em como uma pessoa de saias poderia ser tão insensível a ponto de beber quando um ente querido morre, ficou mais incrédulo ainda quando essa mesma pessoa de saia lhe comeu no cacete. Com todas as letras e sem ambiguidades. Se você acha que a torcida do Manchester United briga bem é porque não viu Willy naquela noite. O diabo parecia ter sido atropelado por um rolo compressor. 666 vezes. Ia deixar marca. Ah, se ia!
Quando finalmente Willy se cansou de bater, Jesus olhou pra poça de água suja na qual o diabo estava. "Por que não?" pensou ele. E, impondo suas mãos, transformou a poça inteira em cachaça. Dessa vez não teve choro nem grito. Sem efeitos especiais, sem luzes, fumaça e toda aquela pirotecnia que o capeta tanto gosta. O cão sumiu de vez. Assim, puf, como salário antes do meio do mês ou aquela mulher fantástica que foi substituída misteriosamente por uma bruxa gorda na calada da noite e você nem reparou. Em todos os casos, você jurava que estava ali antes! Sim, estava! Mas não há nada que Velho Barreiro não resolva.
Estava feito. Jesus devia voltar lá pra cima. Já era quase carnaval e ele não queria ter que desfilar junto com o INRI Cristo. O Cabeludo deixaria saudades. Mas rapidamente Pascoal e Willy se juntaram a ele.
A Willy tinha sido concedido o dom de transformar água em whiskey do mais divino. Inicialmente ele ficou rico vendendo o Realy Hairy Whiskey - O uísque verdadeiramente cabeludo (TM), mas teve complicações e morreu com uma cirrose cruel logo depois de ter ido à falência bebendo todo o próprio estoque. Pascoal não precisava de dons. Já tinha recebido o dom de ser escroto. Comprou a companhia do Velho Barreiro e passou a vender como desentupidor de pias e privadas. Montou um pequeno império, mas faleceu também logo depois que tomou uma dose dessa porcaria para tentar se consolar pela morte de Willy.
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Alguns quilômetros céu acima:
-Ei, gente! Corre aqui! Ela tá saindo do banho!
Obs.: Para os curiosos (e corajosos) que chegaram até aqui, um adendo final (que deveria estar no começo do texto, mas, como eu disse, sou babaca): minha sugestão musical para essa peça final é I'm Shipping up to Boston. Não, a música não tem porra nenhuma a ver com o texto. Eu estou escutando essa merda e achei legal, afinal, isso é uma sugestão - conselhos nunca têm nada a ver com a situação aconselhada mesmo.
The Devil went down to Rio - Parte II
Se você não faz a mínima idéia do que está se passando aqui, nobre (e desocupado) leitor, dê uma olhada (se você tiver saco e, sobretudo, estômago literário para tanto) no post anterior.
Tempo passou e veio o ano de 2001. Logo em Janeiro, o capeta ressurge numa explosão de fogo no cenário do Xuxa Park (verdade, pode procurar por "2001" na Wikipédia!). Pra provar como 2001 foi um ano satânico, logo no dia 20/01, George Bush filho chega à presidência dos EUA. O mundo está novamente nas mãos do diabo (ou de sua família). De quebra, destroem, nesse ano, as estátuas dos Budas no Afeganistão. E as Torres gêmeas (citadas com um mero cunho humanista - não foi culpa do capeta mesmo). Por fim, nesse ano maldito, surge o Windows XP! O mundo se vê envolto em caos...
E o diabo? Segundo testemunhas, foi visto se dirigindo para a Zona Sul do Rio de Janeiro, carregando uns panfletos de faculdades particulares de Direito. Afinal, há cota pra índios, negros, estudantes de escolas públicas, torneiros mecânicos com aspirações indignas, deficientes físicos, mas nem uma mísera vaga para vermelhos. Ora, diabos, que preconceito idiota era esse?! Teria que apelar para o ensino privado. Com seus 66,6 pontos no ENEM, ele poderia muito bem entrar em um desses cursos porcos que aquela coisa esquisita dos advogados do Brasil queria fechar. Como ele já andou pesquisando antes, sabia que qualquer coisa que envolvesse mais de um advogado demorava tempo o suficiente para que ele e seus netos se formassem. Decidiu tentar a sorte.
Mas antes matou John Lee Hooker só pra se vingar do Pascoal.
Logo de começo, o diabo se deu mal. Tomou trote na praia de Ipanema. Os veteranos jogaram tudo o que podiam nele: ovos, tinta, farinha, esquilos, placentas e até velhinhas. Desmoralizado, o diabo foi forçado a ficar 2 horas pendurado em um mastro para rede de vôlei, pra ver se chegava algum navio ao horizonte, e, depois, a assistir à programação evangélica da Record. Mas até isso lhe foi útil. Poderia complementar sua renda com as técnicas perniciosas aprendidas ali.
Mas compensou! Ah, como compensou...
Logo nas aulas iniciais, estava aprendendo sobre ontologia - o estudo sobre a essência das coisas - e, logo que entraram em exemplos, ele se destacou do resto da turma.
"Digam-me, alunos, o que seria a ontologia do Direito?"
"Ver quem destrói o outro com mais eficácia!" - arriscou o diabo no fundo da sala.
"Isso também. Em adição, a lei. Ou a coerção. Ou ainda, se preferir, a sacanagem."
Alguns alunos mais idealistas ficaram revoltados, quem era esse babaca desconstruindo o romantismo e a inocência que eles iriam perder só lá pelo quarto ano de faculdade?
À hora da chamada, todos escutaram o nome: Lúcifer Estrela da Manhã. Frio na espinha, mal estar generalizado. Bah! Besteira! O pai dele devia só escutar muito black metal, death metal, forró ou Falcão. Afinal, existem tantos nomes pro demônio, que era bem provável que pelo menos metade da sala tivesse algum parente ou conhecido que tivesse uma denotação satânica no nome. Além do mais, toda essa modernidade em relação aos nomes... que bobeira, né? Tadinho... o quanto ele deve ter escutado "o capeta em forma de guri" quando era novo... Ninguém merece ser identificado com uma música do Sérgio Mallandro. Nem mesmo o tinhoso. E logo o capeta estava cheio de amiguinhos. Como sempre.
O diabo sempre suscitava as perguntas mais inoportunas. Como no caso de estar a estudar Direito Civil, especificamente Direito das Obrigações: Dar, Fazer e Não Fazer, colocou o professor contra a parede.
"Professor, a esposa tem a obrigação de dar ou de fazer?"
As aulas de Direito do Trabalho também sofreram com sua astúcia.
"Uma prostituta que engravide pode reclamar acidente de trabalho?"
"Um faxineiro do Congresso Nacional pode pedir adicional por insalubridade do local de serviço?"
Os professores estavam estarrecidos. Como aquele sujeitinho irritante e vermelho na primeira fileira conseguia entender tão perfeitamente os nuances da Ciência Jurídica?
E Deus, lá em cima, olha impassível. Um de seus serafins veio humildemente consultá-lo.
"Ó Senhor, vais deixar esse sujeitinho perverter a sociedade brasileira assim, na cara dura?"
"Já chegaram lá antes, pequeno filho. Aqueles caras da estrela vermelha do Apocalipse já fizeram tudo o que o diabo poderia fazer, bem antes dele."
"Mas, Pai, ele vai ficar lá impunemente?"
"Eu dei vários castigos à humanidade. Ao Egito as dez pragas, aos judeus o exílio, aos franceses o queijo, aos norte-americanos os filmes de comédia locais, aos brasileiros o funk. Mas nenhuma dessas pragas se agarrou com tanta força quanto isso de Direito, exceto o telemarketing ou o orkut. Mas, até mesmo os castigos de Deus, são ferramentas contra o diabo. O próprio Pascoal provou isso. E o trote também. Relaxe, pequeno. Além do mais, ele pediu o cancelamento de um cartão de crédito... isso, por si só, já é um castigo maior do que ter caído."
A tese de monografia do tranca-rua foi defendida magistralmente: "O papel do jurista nos conflitos e lides". A idéia central é de que a maioria dos assassinatos, divórcios, estupros e companhias telefônicas só existem de fato para dar dinheiro aos advogados. O que ocasionou uma reviravolta no meio jurídico e fez com que a tal da Ordem dos Advogados do Brasil fechasse mais da metade dos cursos de Direito do país, alegando a má qualidade das instituições. O caso logo foi encobertado. Mas o diabo ganhou notoriedade no mundo jurídico, fazendo com que vários estudantes de Direito fossem peregrinar em sua humilde morada.
"Dr. Lúcifer, Dr. Lúcifer! Por favor, nos diga o que te levou a estudar Direito?"
"Ah... muito simples... quando eu era criança e brincava com os meus coleguinhas, chamei uma delas pra brincar de médico. Ela negou veementemente, dizendo que médico trabalhava muito e ganhava pouco. E me propôs brincar de advogado."
"Só isso?"
"Na verdade, eu tinha tempo demais sobrando e não sabia o que fazer com ele. Como não aceitasse as sugestões de que eu o enfiasse no meu rabo, passei a estudar.
A verdade. Ah... a doce e pura verdade. Nada faz o senado ou um advogado tremer mais do que ela! Logo, todos os discípulos e admiradores do demônio se foram para longe.
Mas que diabos! Não precisava de ninguém mesmo! Sempre foi sozinho. Ia ganhar notoriedade - e dinheiro - por conta própria. E tinha a idéia perfeita... Havia lido sobre o suicídio, e, lembrava-se que incitá-lo ou instigá-lo era crime! Sim, crime! O que significa que toda essa moda de viadagem de música Emo era, na verdade, uma grande campanha de indução ao suicídio! Oras... nem a própria música do inferno incitava essa porcaria! O que? Heavy metal dava no máximo uma lesão corporal leve ou outra... Música do demônio não mata! Tá bom... Um sacrificiozinho ritual uma vez ou outra. Mas, ainda assim, o índice de mortes era menor! Esse negócio de emocore era criminoso mesmo... e como dava dinheiro!
E lá foi o diabo... Processou a maior gravadora que já teve o desprazer (e o lucro) de distribuir esse lixo auditivo e... Perdeu!
Sim, meus amigos! O diabo perdeu a primeira causa na qual advogou! Foi comprovado através de inúmeros laudos médico-psiquiátricos que eram os consumidores da música, e não a música em si, os retardados mentais da história. E como o suicídio não é passível de pena (ou você vai prender um cadáver até ele ser bonzinho e parar de feder pros amiguinhos?), o Dr. Pascoal levou a causa. Vocês ouviram (leram?) bem! Dr. Pascoal! Nesses 10 anos de tranquilidade, Ernesto Pascoal conseguiu sua carteirinha da OAB e tornou-se um grandioso advogado!
E, como foi obrigado a pagar as custas processuais, o capeta teve que vender tudo! Dos chifres até sua coleção do Tiririca. Do rabo (com ou sem ambiguidades) até seu Fiat 147 (sim, ele conseguiu vender. Não pergunte como, ele é o capeta, oras!).
Mas dessa vez não iria voltar pra casa com uma mão na frente e outra atrás... ah não... Agora ficara pessoal! Iria ficar no Rio de Janeiro e ia foder Pascoal com areia e caquinhos de vidro! Fez como todo bom advogado ruim: virou gari. Com direito a sambadinha no carnaval e tudo mais... Mas o diabo tinha uma diferenciação imprevista. Era um advogado normal, como outro qualquer, comprava e vendia almas, vendia Fiats 147 para pessoas com a saúde mental intacta e conseguia até eleger um presidente do PT. Mas o diabo fedia. Puta que pariu! Como fedia! E isso tornava o serviço de gari um tanto quanto peculiar. Quando ele passava na rua recolhendo o lixo, um vudu horrível invadia o local, mas, assim que o caminhão da COMLURB (Companhia de Limpeza Urbana, colegas) deixava a vista, o ambiente parecia tão agradável! Mesmo que o Presidente tivesse baforado o ar depois de uma de suas muitas doses de cachaça, mesmo que um francês tivesse visitado sua casa, mesmo que você tenha servido feijoada com batata doce e ovos ao seu marido... o alívio era divino.
Então, ficou o capeta juntando todo o lixo da cidade (na verdade, quase todo. Infelizmente o obelisco de Ipanema e o gabinete do prefeito Cesar Maia eram grandes demais pro caminhão) enquanto planejava uma longa, dolorosa e malévola vingança.
"Humpf... cidade de merda... se essa porcaria fosse tão boa assim, o dono morava nela - olhou para o Corcovado - dois a zero pra você, cabeludo!"
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Enquanto isso...
A sintonia do canal estava ruim. Na verdade, ruim era perder a esposa pro teu irmão - que é gay. A sintonia estava péssima!
"Ô Pedro! Vamos parando com essa chuvarada toda aí que está quase começando o jornal!"
"Só mais um minutinho, Senhor..."
Ouviu-se primeiro o áudio, depois a imagem foi se formando. Um repórter desses que parece ter passado a eternidade dentro de um guarda roupas junto com uma máquina de café expresso ia falando numa tranquilidade odiosamente jornalística.
"A tradicional imagem de Jesus com cabelos loiros e olhos azuis foi abalada em março por um computador, que recriou o rosto de um homem da época de Cristo baseado em descrições de especialistas."
O sujeito cabeludo sentiu uma mão em seu ombro. Uma voz profunda e bela ressonou por trás dele.
"Temos que trabalhar nisso pra você ter credibilidade, Filho."
"Ah, Pai! Essa de Jesus Negão de novo! Primeiro foi aquela de me colocarem na pele do Maurício Gonçalves pro tal Auto da Compadecida. Admito, foi uma excelente idéia e o cara que me interpretou fez um excelente serviço... Mas é difícil não fazer com um roteiro daqueles!"
"Entendo... Acho que você vai ter que ir passear na nossa cidade outdoor logo, logo."
"Só pega leve dessa vez, por favor... Se eu voltar na pele do Lázaro Ramos dessa vez, vai dar merda!"
Obs.: Como no post anterior, deixo a sugestão de alguma música que tenha o espírito do texto: "A Arte do Insulto" - que nada tem a ver com A Arte de Insultar, de Arthur Wolverine Schopenhauer.
The Devil went down to Rio - Parte I
A partir de hoje, passo a relatar o caso "O Chifrudo, o Cabeludo e o Pascoal", que conta a história de como Jesus voltou ao mundo para anunciar o Apocalipse. Cometendo o pequeno deslize de aparecer logo no Rio de Janeiro - no meio do carnaval. Paralelo a isso, conto também sobre como o Diabo resolveu fazer uma faculdade de Direito, para melhor se preparar para a batalha final. E tem o Pascoal também, mas ele estava bebendo e não faz a mínima idéia do que está se passando.
Certa feita, havia, no Rio de Janeiro, um gaiteiro que tocava como o tinhoso. Na verdade, tocava muito mais do que o tinhoso. Sua gaita soava como o tamborilar dos dedos de Deus no trono celeste - ao menos era o que sua mãe lhe dizia, e, como sabemos, mães não mentem. O capeta, ensandecido de inveja que estava, foi tirar a história a limpo e prestou uma visita ao Rio. Cidade que ele nunca visitava muito, por causa daquela porcaria de estátua gigante da franquia adversária que colocaram como cartão postal do lugar. E também porque os malandros da cidade eram notórios. Uma vez, roubaram até seu rabo! Teve que voltar pra casa pelado e andando... e todos sabemos como a Argentina fica longe do Rio de Janeiro!
Então, lá chegou o Seu Capeta, de malas prontas, terninho branco e chapéu panamá. Só não tinha seu cavanhaque tradicional, porque no Brasil faz um calor dos infernos e o diabo se sentiu em casa, sobretudo quando foi fazer seu desjejum em Brasília. Ao que parece, o tranca-rua trata com uma identificação familiar ímpar todo aquele que vendeu sua mãe por vot... digo, com os parlamentares. Só usa barba pra trabalhar... E, nesse país, quem usa terno não trabalha! Aqui era diversão! Além do mais, isso de diabo de cavanhaque já encheu mais o saco do que a piadinha do Mário (e não pergunte "que Mário?", pelo amor de Deus). Depois de quase ser assaltado no Aterro do Flamengo, só tendo escapado porque estava fedendo a enxofre e a despacho mal feito com galinha preta, não que os marginais cariocas sejam supersticiosos, mas são limpinhos, pelo menos. Foi indo já pra Cinelândia, onde morava nosso herói. Sexto andar. Hum... Auspicioso.
Após insistentes batidas, veio à porta um velhinho gorducho e de pijamas, com uma latinha de cerveja na mão e a outra a coçar o saco. Ao fundo, escutava-se algo bem parecido com Charlie Daniels Band e via-se uma pilha de umas 200 ou 300 latinhas de alumínio hermeticamente dispostas a formar um caos total (!?). O apartamento era modesto e o capeta já foi entrando com a graciosidade (e a insuportabilidade) de um gato.
"Perdão pela intromissão em hora inoportuna, meu caro senhor. É que ouvi dizer que eras o melhor gaiteiro do mundo e vim lhe fazer uma proposta... O que me dizes?"
"Como é que vou dizer algo sem escutar a proposta, moleque? Toma aí essa cerveja... senta no sofá e vai falando!"
"Mas, muito obrigado pela cortesia..."
"Cortesia é meu caralho. Essa porcaria está quente e você está com um bafo horrível. Toma essa merda aí, pelo menos pra ver se melhora!"
Um tanto quanto abalado pela audácia do velho, o capeta resolveu por sua proposta na mesa. Uma linda gaita Hohner, feita de ouro puro e comprada com o Cartão Corporativo dos Amiguinhos do Tio Lula (TM). O gordinho logo olhou para a gaita, como se fosse um garotinho diabético diante de um copo, tamanho industrial, de nutella.
"É o seguinte, senhor... er... como é mesmo seu nome?"
"Pascoal. Ernesto Pascoal."
"Bem, senhor Pascoal, eu te dou essa gaitinha dourada se me tocares uma música melhor do que eu! Se perderes, porém, jamais soprarás novamente uma nota na sua vida!"
"Hum... negócio feito. Manda a ver!"
O diabo desfilou nota após nota, formando uma frenética e transcendental sinfonia. Era, de tal modo, melhor do que um misto de James Cotton, Little Walter e Sonny Boy Williamson (grandecíssimos gaiteiros, seu pagodeiro! Procure já no eMule - Anuncie aqui também seu software). Mas, quase ao fim, não se contendo de tanta satisfação dentro de si, errou uma única nota.
"Você toca bem mesmo, rapaz. Deixa eu ver o que eu arrumo..."
Minutinhos depois...
"Ganhei."
"Como assim?! Você tocou Atirei o Pau no Gato!"
"E daí? Você disse tocar uma música melhor do que você, não uma música melhor do que a sua! Não errei nota alguma. Ou você não se lembra do que propôs? Se eu tivesse errado uma ou duas notas, aí sim, nesse caso, você ganhava..."
Quicando de ódio, o diabo entregou a gaita.
"Agora, quer fazer uma aposta, seu capeta?"
"Como sabes quem sou eu, mortal?!"
"O único ser idiota o suficiente para firmar contratos sem ter uma noção mínima do Código Civil é o diabo! Ou você acha que ia ter sido enganado tantas vezes na história se tivesse uma noção mínima de Direito?"
"Engraçadinho... Diga lá o que propõe!"
"Eu aposto que consigo fazer uma verdade valer mais como mentira do que como a própria verdade. E, se eu conseguir, tu vai é sumir da Terra por uns 10 anos!"
"Rá! Aposta feita! Independentemente do que pedires, se não conseguires, arrasto sua alma pro inferno! O que é quase certo..."
"Então tá bem... vou espalhar por aí que eu venci o diabo num desafio de mentiras. Ninguém vai acreditar, e, mesmo sendo verdade que eu te ganhei, como acabei de fazer, a mentira - hipotética para meus ouvintes - vai ter me rendido que você retire esse seu traseiro imundo da minha casa por pelo menos 10 anos, mesmo que ninguém acredite na verdade. Tchauzinho, filho da puta!"
A sala se encheu de uma luz avermelhada e o diabo cresceu em 5 vezes seu tamanho (como sempre faz nos filmes, e, misteriosamente, não destrói o cenário com tal mudança). Bufando fogo e fumaça, urrou com uma voz brutal e grosseira (alguns diriam até que ouviram o ACM gritando num prédio da Cinelândia aquele dia):
"Maldito seja você e sua família, Pascoal! De onde diabos você tirou essas filha da putagens?!"
"Vou te presentear com uma canção nova de minha autoria, Seu Capeta... começa mais ou menos assim: - puxando 6 ou 7 notas na sua nova gaitinha de ouro, Pascoal começou a cantar - Ô tinhoso, cabra da peste, cão safado! Já fui puto, safardana e drogado! Mas a raça, da pior que fui, foi estudante de advogaaaaaado!"
Sumiu, então, o diabo, numa explosão de luz, fedor e purpurina.
Nesse ano de 1991, o mundo se viu livre então de algumas influências do bicho ruim. Caiu a União Soviética aos 31 de Dezembro, enunciando maravilhas por vir. Afinal, os comunistas comiam criancinhas no café da manhã! Isso, notavelmente era obra do demônio. Posteriormente, esse ofício foi santificado e exercido regulamentadamente por sacerdotes e um ou outro eventual astro albino da música pop, transformando uma prática abominável em um instrumento da graça religiosa. Em Janeiro do ano seguinte, George Bush pai, vomita no colo do primeiro ministro japonês quando sentiu que George Bush avô se foi do mundo. Logo em outubro, Collor foi deposto, trazendo sorrisos e porres regados a bebidas compradas com o dinheiro das poupanças devolvidas. Foi, também em 92, exibido o último Xou da Xuxa. E é desnecessário explicar a influência do diabo nisso.
E o capeta voltou a Buenos Aires.
Obs.: A quem interessar, a música "The Devil went down to Georgia" fica como dica.
Selos e essas coisas caóticas


Seguindo a tradição milenar do blog (antes que alguém mande metralhar minha residência por quebrar a corrente), repasso aqui os selos que (sabe-se lá Deus, Diabo, Odin, Exú Malandro, ou qualquer outra entidade cósmica patética do gênero, o porquê
) recebi destas mulheres:Karen do Digo verdades, conto mentiras
Verônica do Toda forma de poder
Christallina do Candy solitude
Agradeço a paciência para ler essas coisas esquisitas aqui, bem como a falta crônica de pessoas dignas de receberem tais homenagens destas mulheres (que possibilitou que, mesmo sem merecer, eu os recebesse). Aparentemente, todas de blogs com títulos (e conteúdos) coerentes... tá aí mais uma meta pro ano de 2009 - que será devidamente ignorada, como qualquer meta que se prevê para o ano seguinte.

Também, a título de demagogia, agradeço a todos os desocupados que perdem horas importantes de suas vidas na internet, para fazerem os escribas destes blogs loucos do mundo mais felizes! Meu muito obrigado e meu "vão caçar uma ocupação".
Então, ao que interessa, os blogs que vão se foder pra dar continuid... digo, os indicados:
Fêêêêmea!
Bye bye, Laura
Caracolzão
Pguiminha
Nicão

That's all, folks. Now gedda fuck outta here!
O poder do...
FOOOOOOOODAAAAAAAAA-SEEEEEEEEE!
É alguma coisa que invariavelmente você já escutou na vida. No trânsito, no serviço, na faculdade, até romanticamente ao pé do ouvido, quem sabe? Céus! Até mesmo Adão e Eva já escutaram esse tipo de coisa. Claro! "Crescei-vos e multiplicai-vos" te lembra alguma coisa? O que Deus quis dizer na hora foi: "Fodam-se!". Mas ia pegar mal pra publicidade e vendagem do livro depois. Tá vendo, se até o todo-poderoso pode, por que não nós?
Como dizia um cara aí (que terá seu nome suprimido, para que tenha suas bolas preservadas): "a Bíblia é um livro cheio de sacanagem!" - e isso até que é verdade. Quer coisa mais sacana que dar a outra face pra te esbofetearem? Jesus era um cara cheio da astúcia! Tem noção de como isso pode te render uma indenização absurda num processo de danos morais? Aí está um exemplo prático de como foder alguém. E, se você se liga mais no tipo de sacanagem carnal, tem o Cântico dos Cânticos, onde se fala até nos detalhes mais sórdidos do peitinho da moça. Tudo, claro, com a intenção de foder alguém. Nunca fez catequese pra aprender a ler a Bíblia nas entrelinhas?
Saindo um pouco dos exemplos heréticos, antes que me apedrejem, o foda-se é tão enraigado no imaginário popular, que se confunde com o bom senso. Por exemplo, via de regra, come-se só o que agrada aos olhos - culinária ou sexualmente falando - mas, ainda assim, como dita os termos do Código de Defesa do Consumidor, podem haver defeitos ocultos nas coisas, mas a merda toda é que com sexo você não pode devolver ao fabricante. Sua sogra te receberia com um belo de um "FODA-SE", acaso você a abordasse dizendo "toma essa merda aqui e me dá meu dinheiro de volta!".
Para os gagos, o foda-se é de um papel primordial. Permite a eles desistirem completamente de uma frase que já passou da hora de ser dita. Suponhamos, por exemplo, que haja um acidente e o paramédico seja gago. "Me pa-passa o des... de-defibr... desfri-frib... deeee... FODA-SE! O pa-paciente já-já morreu me-mesmo!". Claro, esse exemplo é extremo e os alunos da faculdade de medicina levam 6 anos em seu curso, justamente para conseguirem falar esse tipo de coisa em momentos de grande carga emocional.
Naturalmente, temos também as formas mais cruéis de se foder. As mal-comidas são uma ramificação trágica disso. Há as mal-comidas que se contentam em serem pessoas tristes e simplesmente mal-humoradas, porém, há aquelas que, não contentes em serem criaturas amargas, vis e podres, infernizam a existência alheia, numa espécie de comportamento compensatório na tentativa de foder alguém. Nem que seja à paciência. Mas, não serei sexista nessa classificação, afinal, existem também os mal-comidos, mesmo não sendo homossexuais. É mais ou menos isso. Um sujeito mal-comido é um mal tão grande para a humanidade quanto os cavaleiros do apocalipse, um filme novo da Xuxa ou um governo do PT.
Claro também que o foda-se cria algumas situações economicamente viáveis. Uma brilhante propaganda de motel seria um outdoor gigantesco, com o endereço do mesmo, e, em letras garrafais: "Vão se foder". Ou talvez algo nas linhas de "Traga alguém pra comer - almoço grátis". Mesmo o foda-se estando subentendido. Falando em dinheiro e foder os outros, não poderíamos deixar de citar os profissionais da foda: advogados e prostitutas. Não há profissão mais tradicional do que a prostituição, ao menos historicamente falando. É, em tese, uma profissão altruísta, afinal, às próprias custas (ou lucro - objeto de profunda discussão filosófica), concede-se prazer a outrem... É uma espécie de curandeira, análoga aos médicos - que cuidam do corpo; dos pastores evangélicos - que cuidam do seu dinheiro; dos advogados - que cuidam da sua alma (sobretudo da penhora dela para pagar seus honorários) e dos psicólogos - que cuidam das suas dores de cotovelo.
Temos ainda, o foda-se como finalidade sociológica. De acordo com uma corrente psicanalítica, o capitalismo agressivo é uma parafilia, ou seja, um desvio sexual comportamental, verificado quase exclusivamente em patrões, normalmente sob a forma de derivar prazer em foder com a vida dos empregados. Tudo isso muito bem oculto com aquele papo de liberdade individual, justificado por aquele outro papo de politicamente correto e tal.
Por fim, um exemplo prático - e talvez o único resíduo de uma crônica nesse canavial de sacanagens - outro dia, a conversar com uma pessoa, veio a tese de que mulher feia caçando homem é tosco. Primeiro porque o verbo correto é realmente "caçar", depois, porque quando você decide criar a imagem mental, a primeira coisa que vem à mente é justamente alguém com um tacape, correndo atrás de um macho assustado. Disse que, com isso, me lembrei de uma pessoa em uma festa à fantasia que ilustrava perfeitamente a idéia, ao que meu interlocutor retrucou que era uma grande maldade de se dizer. Oras, disse que fazia o comentário a mero título ilustrativo, e, que pra compensar, usaria a personagem qualquer dia em uma crônica. Eis o exemplo perfeito: tá aí, guria do tacape... se fodeu!
A vida é dura...
Era um sonho de infância e agora o realizara. Homero Kehr Durão exultava de alegria enquanto voltava para casa, excitado para contar tudo à sua mãe e também à sua vizinha. Uma paixonite dessas que se traz da infância, das quais nunca se consegue desvencilhar. Digo, pelo menos enquanto você a veja todos os dias pegando o jornal no jardim à frente da sua casa, e, sobretudo, quando ela é a última (e, na verdade, a única fêmea conhecida) que te dá esperanças de perder a virgindade antes dos 25.
Sucedeu que Juliana, que Deus a tenha, cedeu finalmente aos gracejos de Homero, e, logo estaria de véu (!?) e grinalda (?). Cabe aqui dizer também que o acaso (ou a imaginação deste escriba) foi desagradável por demais com esse casal. Juliana levava como sobrenome "O. Pinto", onde revelar o significado do "O." tiraria grande parte da graça, e, portanto, não interessa. O que, naturalmente, deve ter rendido boas piadas por parte de seus coleguinhas no ensino primário, e, o motivo dessa história estar sendo contada.
Logo que se apercebeu disso, a mãe de Juliana, mais do que alarmada, mandou chamar os noivos para palestrar com eles.
-Diga, meu filho, você já percebeu que sobrenome... er... peculiar um eventual filho de vocês teria?
-Oras, dona Júlia, pensei muito em Bráulio. Com o Pinto da Juliana e o meu Durão, seria Bráulio O. Pinto Durão. - exatamente nesta hora, Homero se apercebeu do quão auspicioso seria o sobrenome de um filho, e, logo o viu adentrando o exército. Seria viril. Aliás, era tão viril que quase era gay. Homero seria praticamente obrigado a sair do exército para deixar o filho assumir toda a glória do nome. Pensando assim, emendou - E sabe do que mais, dona Júlia? Assim que ele nascer, eu saio do exército e vou abrir uma escola!
-Mas uma escola, amor? Já pensou que horror? Você, como diretor, vai querer que nosso filho estude lá! E o que vai acontecer quando os alunos chegarem em casa e disserem: "pai, mãe, hoje o diretor nos apresentou o Bráulio O. Pinto Durão. Disse que é um cara muito legal e que vai ser nosso amiguinho especial o ano inteiro."? Já pensou o mal entendido e os processos que isso pode render? Até você provar que tutu não é cocô, a escola já faliu!
-É mesmo, Homerinho... pior ainda, já pensou se for uma menina? Não quero nem imaginar como ficaria o nome da garota com esses evocativos Pinto, Durão e Kehr na mistura! E minha filha? Como você acha que ela vai conseguir um emprego, que não seja na indústria pornográfica, com esse nome?!
-Mas, dona Júlia, Aninha...
-Sem mas, Homero!
E, desconsolado, foi pra casa. Chegando-se à sua mãe, e, como mãe sabe dessas coisas, esta logo lhe disse:
-Liga não, Merinho... de um modo, as pessoas que têm a vida que esperavam ter, são as mesmas que enfiam canos de revólver na boca. E sabe, depois que você casa, costuma aprender um termo latino... divórcio. Que significa "arrancar as bolas de um homem pela sua carteira". Seu pai conhece essa palavra em mais de 15 idiomas. O homem aprende depressa. - pausou e olhou enternecidamente para o filho - além do mais, meu bem, você já tem 25 anos. Virgindade não é pênalti, você já pode perder!
E, do outro lado, Juliana tentava argumentar com dona Júlia.
-Ô, mãe, você acha que o ser humano ia inventar um prazer condicionado a um problema, e, não inventar a solução pra isso? Nem que fosse pra ter lucro? Pra cachaça existe o engov, pro sexo existe a pílula anticoncepcional, pro casamento existe o divórcio... é tudo minuciosamente planejado. Se não der certo, a gente se separa!
-Mas, meu anjinho... imagina a quantidade de coisa ruim que pode acontecer... Se vocês casam mesmo e têm um filho que vai pro exército, imagina ele sendo chamado pra receber uma promoção. Quem vai ser o oficial que vai ter colhões para dizer que o General quer o Pinto Durão na sala dele? No mínimo é corte marcial! Ou então se ele for se consultar. Meu Deus do Céu, Ju! Se ele for no proctologista! Pior! Se ele for um proctologista! Quem é que vai se consultar com um médico desse tipo, chamado Dr. Pinto Durão?
E nessa pendenga ficou, até que os dois finalmente se casaram. Tiveram Bráulio. Homero saiu do exército e abriu seu colégio. Foi processado, ganhou e ficou rico com os danos morais. Bráulio não abraçou a carreira militar, ao invés disso, perdeu a virgindade bem antes de seu pai, virou ginecologista e foi muito feliz a vida inteira, excetuando-se por uma ou outra ameaça de morte, por parte dos machos ameaçados. Quanto à Juliana, abriu para si uma lanchonete, mas morreu tragicamente por causa do cigarro. Não de câncer, mas pela voz rouca e grave com a qual respondeu a um cliente bêbado, quando este, querendo comê-la, perguntou seu nome. Juliana O. Pinto Durão.
Maniqueísmo(?)
Outro dia fui interpelado por uma amiga que, agoniada, me falava sobre a pequenez da alma frente às dicotomias, digamos, clássicas. Não falo aqui do infantil Bem x Mal, do industrial Coca x Pepsi nem do político Lula x Inteligência, mas de coisas mais sutis (ou mais pedantes), como o clichê Felicidade x Lucidez. Não que não haja pessoas extremamente lúcidas, a seu próprio modo, como minha avó, anos atrás, quando tentava me ensinar sobre conceitos abstratos, como a verdadeira motivação, quando dizia “continua chorando, moleque, que eu vou te dar uma razão verdadeira para você chorar".
Desconsiderando esses subjetivismos e os graus de parentesco, alguém poderia evocar figuras históricas para tentar exemplificar o escalonamento da misantropia enquanto companheira direta do esclarecimento. Diógenes com seu cinismo e seu barril, Nietzsche com seu bigode e seu nihilismo, Schopenhauer com suas suíças e seu irracionalismo ou Heidegger com sua fenomenologia e seu inicial desejo pelo celibato, são figuras misantropas clássicas com um quê de refino intelectual quase inigualável. Afinal, portam-se mais como anti-heróis do que outra coisa qualquer e poucas coisas estimulam tanto a imaginação, e, por que não o “querer ser” de tantas pessoas como esse tipo de atitude. Digo, afinal, você prefere o Wolverine ou Nabor, o Príncipe Submarino?
Talvez haja uma associação inconsciente entre a misantropia ou a simples ação socialmente agressiva com o esclarecimento ou, talvez, um certo status social degenerado. Quem sabe a semiologia relativa ao eremita, ao homem do mato solitário se associe com a proverbial sabedoria da coruja, ou, então, a simplicidade da inteligência popular tornou-se um clichê tão poderoso que é considerada mais cômica do que sábia, que tudo aquilo que foge a ela é tido como inovadoramente intelectual. Sabe-se lá.
Coloquem-se aqui nesse espacinho todos aqueles que se julgarem um solitário iluminado, digamos, Kafka, Joyce ou Linspector, e, por que também não, você, caro leitor, que na falta de uma obra de um desses autores supracitados está lendo na solidão da sua solidariedade ou pena esta humilde elucubração, que, sem pretensões de se taxar como iluminista, visa ao menos fazer com que seu próprio cronista entenda o que quer dizer. Pois só se adquire maestria, ou pelo menos entendimento, sobre algo depois que se efetivamente discute (ou monologa-se) sobre o objeto. Não pela qualidade do texto, que, na verdade, deixa a desejar, e, notoriamente, é mais uma instigação à busca por algo realmente construtivo.
Cabe aqui também um adendo sobre um clichê estúpido, mas funcional o suficiente para render uma ou outra monografia medíocre ou uma obra genial clássica. Ignorância e Felicidade. Com letra maiúscula mesmo. Nada estimula mais uma alma do que aprender, e, ainda assim, nada a faz tão pequena. O aprender é, a meu ver, o maior desbravador dos limites da estupidez, afinal, quanto mais se aprende, mais se tem consciência de que não sabe-se quase porra nenhuma daquilo que empenhamo-nos tanto em tentar entender... talvez daí venha o mau-humor característico dos sábios, o que significa que eu seria uma espécie com um débito de sabedoria o suficiente para acender um cigarro perto de um posto de abastecimento de gás. Notemos bem que aqui não há uma dicotomia, afinal, o condicionamento aqui é da felicidade enquanto indivíduos “ignorantes”. Exemplificando, se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém ouve, ela faz barulho? Ou, mais no foco do assunto felicidade ignorante, se as pernas de uma esposa se abrem e ninguém vê, elas fazem um corno?
O depredador da paz de espírito, aqui, é a certeza, o conhecimento de algo. Invocando Kant e Nietzsche, é preferível escutar a verdade sempre ou a mentira às vezes? Quanta verdade um espírito suporta?
Se o conhecimento espanta tanto assim as outras almas, seja por inveja, medo ou simples incompreensão, por que é tão perseguido assim pelos espíritos sedentos por evolução ou vaidade? Por que morrem sozinhos ou loucos homens e mulheres que foram grandiosos dentro de si mesmos? Talvez por nunca terem se visto como pequenos, não necessariamente tendo uma visão exagerada de si mesmos, mas, ao menos, tendo consciência de que estão em um patamar de raciocínio ou de entendimento do mundo muito mais profundo do que os rostos anônimos por quem passam nas ruas, justamente porque não entorpecem suas mentes para não serem obrigados a ignorar as escolhas. A vida de um escravo é fácil. Resume-se a obedecer, a seguir. Não se faz esforço, não se desgasta em decisões e dilemas. E, por que permanecem anônimos esses rostos? Não por mediocridade, tampouco por falta de sonhar. Ignoram. E sorriem. Não disse que a escravidão era boa. Somente fácil.
Aqui então, finalmente, alguns poderiam debater e se digladiar sobre a superioridade da felicidade sobre o esclarecimento e vice-versa até que as calotas árticas se derretessem todas, tudo bem que isto não demoraria muito, mas os desocupados que se prestassem a debater isso deveriam priorizar aulas de natação às suas divagações infrutíferas, pois cada um sabe exatamente a merda e a majestade que é ser si próprio, com a parcela de ignorância ou misantropia que cabe a cada qual.